terça-feira, 19 de junho de 2018

A EVOLUÇÃO POLÍTICO - TEÓRICA DE MARX

Um estudo da evolução político - teórica de Marx, metodologicamente marxista, exige, antes de tudo, sua contextualização segundo os princípios  do materialismo dialético inaugurado por ele e por Engels. E o reconhecimento de que esta análise contextual não é um complemento. É condição indispensável para que se compreenda o conteúdo e o significado do seu pensamento e de sua ação política.
Para empreendê-lo, o primeiro passo deve ser, portanto, a inserção da obra marxiana na totalidade histórica em que surgiu e se desenvolveu, identificando e examinando, além disso, os cenários específicos que a condicionaram e por ela foram condicionados.
Teremos então, a EVOLUÇÃO POLÍTICO - TEÓRICA DE MARX na SOCIEDADE CAPITALISTA DO SÉCULO XIX, nela destacados A LUTA POLÍTICA DO PROLETARIADO (onde ele e Engels militaram) e O PENSAMENTO NEO - HEGELIANISMO DE ESQUERDA (origem filosófica dos dois).
A utilização do conceito de condicionamento permite a apreensão dos limites e das possibilidades dessa evolução sob circunstâncias determinadas. Todavia, igualmente deve ser lembrado o conceito de autonomia parcial e variável das idéias. Só assim é possível superar a polêmica "idealistas X materialistas tradicionais", ou seja, "idéias livres de qualquer imposição político - econômica X idéias escravas do entorno social". Aliás, é justamente esta dupla consideração que traz à tona o caráter dialético da relação entre realidade social e pensamento organizado. Porque prova a reciprocidade entre eles, fazendo caducar as noções de causa e efeito.
Se é fato que a realidade constituída oferece as condições necessárias para que brote um pensamento estruturado, também é fato que tal pensar pode "selecionar e interpretar" os elementos dessa realidade que deseja como guias para sua trajetória. Exemplo claro é a revolta dos tecelões silesianos (em junho de 1844) ,que foi completamente ignorada pela "inteligência" neo - hegeliana e, consequentemente, não acarretou nenhuma mudança em suas posições teóricas. Em compensação, influenciou decisivamente as concepções de Marx que a analisou, escreveu sobre ela, defendeu, aprendeu, ressignificou... e foi expulso da França pela censura prussiana.
Desse modo, é possível concluir não ser um acontecimento histórico ou uma doutrina filosófica "em si" que determinam sozinhos o desenvolvimento de uma reflexão. Há que acrescentar ao conjunto das condições objetivas a primazia interpretativa que se dá a algumas delas. Por outro lado, a atenção dada por Marx à greve na Silésia inegavelmente foi influenciada por sua então recente participação em organizações operárias parisienses. Foi nesse contato que descobriu o potencial revolucionário do proletariado, sua capacidade de ação autônoma, o passo adiante... A ação política levando à investigação teórica.
Entretanto, torna-se ainda necessário levar em conta a bagagem intelectual marxiana quando aproximou-se do movimento operário.Pistas podem ser encontradas já em 1843, quando ele redigiu a "Introdução à Crítica do Direito de Hegel" (publicada no início de 1844, no único número dos "Anais Franco - Alemães"). Nela afirmava que "o poder material só pode ser vencido pelo poder material" e "a teoria também se transforma em força material quando apropriada pelas massas".
Mais adiante, nas "Teses sobre Feuerbach" (escritas em 1845, publicadas por Engels em 1888), outra pista: "Os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo, mas do que se trata é transformá-lo" (TESE 11).
Essa compreensão foi a revolução primeira que abriu caminho para a revolução político-teórica que empreenderia ao longo da vida, formulando uma crítica radical para desnudar o real, sempre encoberto pela manipulação dos dominadores. E que tinha por objetivo contribuir para a construção de uma sociedade justa, onde a contradição opressor/oprimido, insolúvel no modo de produção capitalista, pudesse ser superada. UMA TEORIA DA PRÁTICA, UMA PROPOSTA DE LIBERTAÇÃO.

MARIA 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA

"Sei que uma dor assim pungente
 Não há de ser inutilmente
 A esperança dança
 Na corda bamba de sombrinha"
Aldir Blanc e João Bosco


Em 2017, o golpe continuou golpeando. De todos os lados. De todos os jeitos. Bateu forte e bateu muito. Fez o que pôde para apagar a luz, semear o medo, forjar a opinião, distorcer a realidade. Roubou, reprimiu, censurou, matou. A opressão foi concreta, a violência foi brutal, a perversão foi gigante.
No comando do horror, uma máfia vestindo toga, uma confederação de bandidos engravatados e uma mídia televisiva sugadora de consciências. Todos a serviço do capital. E tendo por escolta um renascido bando de jagunços da "federal" que, com "braço forte", tentou jogar no chão uma teimosa esperança equilibrista.
Sua fúria demolidora violou muitas vezes a Constituição, atropelou direitos humanos, vendeu o pré-sal, esfacelou programas sociais, promoveu um desmanche trabalhista, criminalizou a luta política e o pensar diferente.
Sobretudo, anunciou a morte em vida do homem/símbolo disso tudo. O homem, que colocando os pobres no orçamento, colocou-os também em empregos com carteira assinada,em cursos técnicos, nas universidades, na casa própria, nos aeroportos... Foi ele apontado como o comandante máximo de todos os mal-feitos praticados no Brasil, quiçá no mundo. Não somente a partir de 2003, mas desde sempre. 
Sem sequer uma prova dos crimes que lhe imputam, porém com "fortíssima" convicção, a juristocracia golpista tentou desconstruir Luís Inácio a qualquer custo. O processo que o condenou em primeira instância teve a forma de um processo judicial, todavia seu conteúdo foi o de uma indisfarçável perseguição, só própria dos tribunais de exceção.
Para combater tal retrocesso civilizatório, muitas barricadas foram erguidas. No entanto, o ataque avassalador  do projeto neoliberal não foi contido. Ficou-se aquém do necessário para que "não passasse". Os "quarenta milhões"  não vieram. Pareciam não ter consciência do abismo a tragá-los. Apesar disso, mandaram seu recado através das pesquisas de opinião. Num crescendo, o nome de LULA foi sendo indicado por estas maiorias silenciosas para representá-las, de novo, como Presidente da  República. O ano terminou com ele em primeiríssimo lugar na preferência popular, segundo todos os pesquisadores.
Agora é preciso que se espalhe ao vento que isto não basta. Para que seja votado é preciso que possa ser candidato. Forças poderosas serão desencadeadas para que tal não aconteça. Há que enfrentá-las nas ruas. E mesmo que esta primeira batalha seja vencida, logo haverá uma outra: garantir que as eleições aconteçam. E mais outra... E outra...
Então, depois de tanto embate, talvez 2018 ensine ao povo que o salvador é ele mesmo, quando levanta e luta.
MARIA




segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MEUS RESPEITOS, PROFESSORA

Professora que estás na rua, hoje é teu dia.
Mas não te trago flores, nem bombons ou poesias. Sei que perfumes,doces ou rimas não vão  amenizar o desânimo presente nos outros 364 dias do teu ano.
O que queres e precisas é respeito.
Respeito dos que te querem calada e sem partido, como se alguém pudesse ser professora calada e  sem partido.
O que queres e precisas é respeito.
Respeito daqueles que, ignorando teu cansaço, te elogiam em belos discursos e te negam as  condições para uma vida digna.
Sabem eles, professora, que te impedindo de ser a profissional que teus alunos desejam e merecem,  mais longo será o caminho para chegarmos à transformação da dura realidade em que estamos  mergulhados. E mais tempo terão eles para permanecer onde estão.
Mas sabemos nós, professora, que só vencendo a descrença em tudo e em todos, inclusive em ti  mesma, terás força para reconstruir os caminhos quantas vezes forem necessárias. Ou, como disse o  Galeano um dia, não haverá caminhos... Nem professoras.
Sabemos nós também, professora, que das lições por ti ensinadas, as mais importantes não são  aquelas da lista de conteúdos. São as que mostram como buscar o sonho escondido no meio do  pesadelo, como lutar para construir uma sociedade justa, onde a riqueza seja igualmente partilhada e  o ser humano possa ser melhor e mais feliz.
Acreditando que, mesmo perplexa e dolorida, não calarás tua voz, rasgarás tua lista de conteúdos e  tomarás sempre o partido dos índios das mãos decepadas, dos trabalhadores sem-terra encarcerados  em penitenciárias de segurança máxima, dos jovens pobres (negros e brancos) assassinados pelo    Estado diariamente nas periferias, dos milhões de desempregados pelo golpe em curso no Brasil e de  todos os oprimidos nos muitos cantos do mundo, hoje te trago o único presente que queres e  precisas.
MEUS RESPEITOS, Professora que estás na rua.
                                                                                 MARIA
                                                                                15 de outubro de 2017

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A PALAVRA DITA

                                                              " ...
                                                                 quando estou longe,
                                                                 quero ficar perto
                                                                 quando estou perto,
                                                                 quero ficar dentro
                                                                 quando estou dentro,
                                                                 quero ficar mudo
                                                                 quando fico mudo,
                                                                 quero dizer tudo..."
                                                                         poema de Itamar Assunção,
                                                                         interpretado lindamente por Zélia Duncan

Com a voz dificultada pelo nó da realidade, atravessado na garganta, e mesmo sem a pretensão de dizer tudo, recorra-se à história para continuar falando. Talvez nela se encontre uma palavra dita que, pedagogicamente,  precise hoje ser repetida.
                           
"RS, BRASIL, MUNDO, DEZEMBRO DE 2002
Encerrou-se neste chão uma experiência governamental de esquerda que fez avançar a participação popular, a democratização das relações de poder, a luta no campo, a humanização da segurança pública, o investimento na cidadania com inclusão social. Isto, através de políticas públicas que tinham como objetivo a construção de um Estado controlado pelo povo, sem clientelismo e sem assistencialismo. Com seus erros e fragilidades, foi o melhor governo que o Rio Grande do Sul já teve. Um governo do Partido dos Trabalhadores. Tinha a nossa cara.
BRASIL, AMÉRICA DO SUL, MUNDO, JANEIRO DE 2003
Um operário assume a presidência da maior república ao sul do Equador. Fato - produto de uma aliança partidária esdrúxula - esquerda e direita amontoando-se para governar um território espoliado pelo capital há 500 anos. Caminho conscientemente escolhido pelas correntes de pensamento hegemônicas nacionalmente no PT. Caminho que o leva, numa velocidade não bem dimensionada por nós, para o lado oposto àquele que queríamos.
Diversamente da experiência gaúcha, a coligação LULA/PL (e quase todos os pês) propõe-se a adotar conceitos criados pelo FMI, exatamente como governos neoliberais do mundo inteiro. O mercado continua Senhor.
No entanto, este é um governo mais contraditório do que uma avaliação ligeira permite supor: Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério das Cidades, Ministério do Meio Ambiente, são nichos a abrigar imagens da nossa luta. E outros nichos existem ou serão  criados, com certeza.
Enquanto isso, dentro do Partido, as diferentes tendências buscam articular-se e encontrar formas de disputar com a direita os rumos governamentais e, consequentemente, os rumos da história do Brasil e da esquerda mundial. Não é pouca coisa. E o esvaziamento da democracia interna torna maior ainda o desafio.
Nossas contradições, hoje claramente expressas porque estamos no governo da Federação, são na verdade, antigas. Estão mesmo nas próprias origens do Partido. Por isso, a pergunta da hora não deve ser "se é possível mudar os rumos do governo LULA", mas uma outra, muito mais pertinente para quem sabe que "tudo que é sólido desmancha no ar": Nós seremos persistentes e consistentes o bastante para fazer essa disputa?
Nossos sentimentos contraditórios, nossa vontade de fugir ou de dormir, nosso desejo de devolver o ingresso e voltar para casa, nossa gana de apagar a estrela, podem ser explicados pelo fato de ter nascido da melhor das nossas possibilidades não o que sonhávamos e sim o que temíamos. Mas e aí?
Somos meninas e meninos cansados? Envelhecemos?
Nos perdemos no meio da tempestade? Amarelamos? 
Ou não éramos bem aquilo que dizíamos?
Nossa história, a história da esquerda latino-americana, tem sido a história de vitórias e derrotas improváveis. A improbabilidade tem sido a regra da nossa construção e da nossa desconstrução. Mais uma vez o improvável está a nos provocar. Há poucas chances de que o governo LULA redirecione suas ações. Mas e aí?
As probabilidades de que o futuro seja feliz são muito poucas. Mas haverá mais chances para elas se, vencendo o cansaço, a descrença em nós mesmos, nos "avermelharmos" de novo e mostrarmos que somos bem aquilo que dizíamos. 
Maria
Uma contribuição ao debate
Junho/2003"

Quatorze anos depois, cá estamos a questionar os caminhos e os governos por nós construídos. Ainda têm sentido as questões lá atrás levantadas? Ou serão outras as nossas preocupações agora?
Não está ainda claro o que o PT aprendeu com a gigantesca derrota que lhe foi infligida pelo capital neste assustador 2016. Mas uma primeira lição já parece ganhar certa nitidez e está a exigir de nós um esforço imediato de reflexão.
Trata-se da constatação de que a força partidária deve estar com a militância organizada na base. Ela pode e tem a responsabilidade de dar a direção que entender necessária  para que o Partido siga - adiante e à esquerda, rumo ao SOCIALISMO.

                                                       Muito perto,
                                                       muito dentro,
                                                       mas não muda,
                                                                            Maria
                                                       Uma contribuição ao debate
                                                                 Dezembro/2016
                                                     


segunda-feira, 23 de maio de 2016

O CRIME DE DILMA

Agora o Brasil todo já sabe. "Pretistas" e "trouxinhas", pobres e ricos, os do norte e os do sul, os mais velhos e os mais jovens. Foram informados pelo jornal "Folha de São Paulo", em sua edição de 23 de maio de 2016. A Presidenta da República, Sra. Dilma Rousseff, eleita com 54 milhões de votos, não podia mesmo continuar no cargo. Enquanto "lá" estivesse a Operação Lava Jato não seria encerrada, por ser a mais escandalosa e eficiente forma encontrada pela oposição "midiática" para desestabilizar seu governo. Embora contra ela nenhuma acusação tenha sido comprovada em mais de dois anos de intensa investigação. E já estava na hora de encerrar a Lava Jato.
Parece absurdo?
Pois então só parece. Em reportagem disponível no site da Folha, o jornalista Rubens Valente (não apenas no nome) divulga o conteúdo de um áudio gravado em março (e já de posse da Procuradoria Geral da República) contendo uma conversa entre Romero Jucá (senador do PMDB, ministro forte de Temer) e Sergio Machado (ex-presidente da Transpetro, indicado pelo PMDB, demitido por Dilma), ambos indiciados por corrupção. Nessa conversa, escancara-se o pacto firmado por uma confederação de bandidos para "estancar a sangria" que a dita operação estaria neles provocando. Segundo os próprios, "chegando onde não deveria chegar". Afinal fora montada para atingir o PT e só o PT.
A sordidez do "papo reto" é tanta que os "conversadores" confessam crimes, entregam outros cúmplices, acusam partidos políticos aliados seus e, até mesmo, envolvem ministros do Supremo Tribunal Federal na trama urdida para depor a Presidenta, deixando transparecer que o único crime por ela cometido foi ter sido reeleita, atrapalhando consequentemente o fim das ações de Curitiba.
Descobre-se, portanto, que o impedimento presidencial não é apenas desejado para que se leve de roldão as políticas governamentais de inclusão social e de democratização da vida levadas a cabo nos últimos 13 anos. Nem para que sejam retirados com mais facilidade os direitos trabalhistas e previdenciários garantidos pela Carta Constitucional de 1988. Ele foi planejado para que o dinheiro público possa, de novo, ser roubado "em paz". Aqueles que o teceram não são  meramente defensores de uma visão de mundo neoliberal, são também ladrões. 
Como o Supremo Tribunal Federal, a Rede Globo, os partidos políticos citados, a Procuradoria Geral da República, os Senadores, Michel Temer e os demais referidos  no diálogo Jucá/Machado  vão enfrentar os efeitos desse "fogo amigo", logo saberemos. No jogo do vale-tudo que estão acostumados a jogar, não faltarão tentativas para sair ilesos. No entanto, as consequências maiores do desmascaramento são, por enquanto, difíceis de prever. Será possível reverter o mal-feito?
De imediato, a única certeza que se tem é  que os golpistas faladores deram à ministra Rosa Weber (do Supremo) a resposta que ela exigiu de Dilma há poucos dias: CHAMA-SE O GOLPE DE GOLPE PORQUE É GOLPE.

MARIA
 


 

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O QUE SERÁ QUE SERÁ?

Neste conturbado momento porque passa a sociedade brasileira, o que menos importa aos ansiosos pelo poder a qualquer custo é o respeito aos princípios democráticos de organização coletiva, conquistados na luta contra a ditadura e garantidos constitucionalmente a partir de 1988. Até aí, nada de novo. Não é própria de golpistas a defesa da Democracia, da Constituição ou de resultados eleitorais.
Também nada de novo pode ser encontrado no comportamento dos grandes veículos de comunicação de massa que, em conjunturas políticas como a colocada na atualidade, invariavelmente posicionam-se ao lado dos que atacam o poder popular. Mais ainda – fazem parte desse lado. Travestindo-se do seu contrário, outorgam-se o papel de paladinos da ética e da justiça enquanto utilizam seus grandes recursos financeiros e tecnológicos para fraudar informações e forjar opiniões favoráveis aos intentos das elites econômicas.
Exemplo disso tem sido há 52 anos, a rede globo de televisão. Escondendo o tríplex de lama sobre o qual está edificada (sonegação fiscal, evasão de divisas e empresas de fachada no exterior), apresenta-se aos telespectadores como uma isenta analista da realidade do país e do mundo e uma defensora incansável da verdade dos fatos.
Pois, entre as figuras públicas envolvidas no turbilhão de denúncias e indiciamentos judiciais que assola a nação, esta dita rede globo “elegeu” (ato falho talvez) Luís Inácio Lula da Silva (contra quem não há até agora uma única prova de crime cometido) como o assunto preferencial das análises e verdades “isentas” e “inquestionáveis” de sua vitrine midiática. A ele tem dedicado incontáveis minutos em todos os seus telejornais (fielmente propagandeados e reproduzidos por suas afilhadas regionais).
Em nenhum desses programas Lula recebe elogios ou reconhecimento, muito menos a consideração devida a um ex-presidente da República que, eleito e reeleito, deixou o cargo com 87% de aprovação. Ao contrário, é cotidianamente tratado pelos repórteres, apresentadores e “opinadores” globais como o inimigo número um da República, o marido cúmplice de uma compradora de botes de lata e de pedalinhos, o responsável por todas as mazelas que atingem os brasileiros, o pai da corrupção mundial, o judas a ser malhado...
No entanto, mesmo depois dessa avassaladora campanha difamatória, de meses a fio de linchamento moral, de tantos e tantos “esclarecimentos” no jornal nacional, eis que Luís Inácio aparece liderando as intenções de voto para a Presidência da República, em pesquisa do conhecido Instituto Datafolha, de propriedade do jornal “Folha de São Paulo”.
O QUE SERÁ QUE ISSO SIGNIFICA? Que o povo não é bobo e que hoje muitos já sabem que a rede globo mente?
Talvez esta seja apenas uma primeira e óbvia conclusão frente aos dados da pesquisa. Um olhar mais atento poderá neles perceber um contraponto aos tão repetidos procedimentos da plutocracia nacional quando em defesa dos próprios interesses. Um comportamento novo que expõe as marcas da experiência vivida pelas classes trabalhadoras nos últimos 13 anos. Aprenderam a dizer não. DE NOVO, NÃO.  O que se quer é mais, não menos.
Hoje sabem os trabalhadores que, em seu ”reino idealizado”, a burguesia só os quer se for a serviço. Sabem também que atrás do processo movido contra a Presidenta da República o que se esconde é uma tentativa de aniquilamento dos avanços obtidos na área dos direitos sociais durante os governos Lula e Dilma.
E sabem, ainda, que a tal “ponte para o futuro”, proposta por Michel Temer (PMDB) e seus cúmplices do DEM e do PSDB, será, na verdade, um muro a separar os que sobre ela passam dos que sob ela vivem.
Assim, o novo não é o conflito de interesses, que este existe há 500 anos nestas plagas. O novo é a determinação crescente de resistir aos ataques contra a democratização da vida. Por isso, independente da decisão dos senhores deputados no domingo, 2016 não repetirá 64.  

MARIA


quarta-feira, 30 de março de 2016

A BEM DA VERDADE HISTÓRICA

O processo de impeachment da Presidenta da República, ora em curso no Congresso Nacional, está embasado oficialmente nas chamadas “pedaladas fiscais”, que significam atrasos (apenas atrasos) nos depósitos junto à Caixa Econômica para efetivação do pagamento de benefícios sociais às camadas populares. Atrasos estes ocorridos em 2014. No mandato anterior, portanto. Mesmo depois de dois anos de investigação na chamada Operação Lava Jato, não há contra ela nenhuma acusação de corrupção, de enriquecimento ilícito, de lavagem de dinheiro ou de obstrução à justiça (nem mesmo sem provas como as feitas a Lula). E as ditas “pedaladas” não caracterizam crime de responsabilidade, o único motivo estabelecido pela Constituição para um impedimento legal.
O mesmo não se pode dizer dos parlamentares que hoje se arrogam o direito de interromper um mandato legitimado por 54 milhões de votos. A atual composição do parlamento brasileiro não tem a menor condição moral de conduzir um procedimento político de tal envergadura. Os senhores parlamentares, em sua maioria, são representantes das cínicas e arrogantes parcelas da elite que bancaram suas campanhas e não dos pouco informados eleitores que lá os colocaram com seu voto. Segundo dados do Portal Transparência (organização não governamental existente desde o ano 2000), dos 513 membros da Câmara Federal, 303 estão acusados pelos graves crimes de roubo de dinheiro público, recebimento de propina ou improbidade administrativa. E, dos 81 senadores, 49 estão envolvidos em denúncias semelhantes. Na Comissão do Impedimento, composta por 65 deputados, 33 estão indiciados por delitos da mesma natureza. Nela está, por exemplo, Paulo Maluf, recentemente condenado em Paris por lavagem de dinheiro. Impossível esquecer, ainda, que o próprio Presidente da Câmara é um delinquente conhecido internacionalmente e em julgamento pelo Supremo Tribunal Federal.
Como foi possível chegar a tão insensata conjuntura? A uma crise política que atinge a economia, a legalidade republicana e até mesmo a forma de comportamento social?
É inegável que os agentes provocadores da desordem jurídica, da polarização na sociedade, do prejuízo econômico e do caos político em que nos encontramos são os defensores da visão de mundo derrotada nas urnas em 2014 (pela quarta vez). No entanto, seria ingênuo concluir que é apenas pela cadeira presidencial o golpe que planejam. Querem muito mais. Querem o “seu” país de volta. Aquele, em que alunos da escola pública não iam para a universidade, funcionários públicos federais viviam em permanente arrocho salarial, negros e portadores de necessidades especiais dificilmente entravam no serviço público, pobres não frequentavam shoppings nem aeroportos, o Estado ficava cada vez mais mínimo, o patrimônio público era pirateado livremente, o Brasil estava bem representado no mapa mundial da fome e “eles” eram os únicos a lucrar.
Muitos são os engajados neste trem golpista: da poderosa Rede Globo (encarregada da manipulação das informações e da incitação ao ódio) às camadas médias preconceituosas e desinformadas pela “Veja”, passando por setores do Judiciário e do Ministério Público e chegando à contraditória OAB (que, como disse Eduardo Cunha, chegou atrasada ao trem). 
Em contrapartida, são muitos também os setores sociais que se insurgem contra um processo de afastamento da Presidenta baseado somente em antagonismo político, sem nenhum amparo constitucional. Entre eles estão estudantes e professores, advogados e magistrados, artistas e escritores, CNBB e comunidades universitárias, centrais sindicais e representantes de mídias alternativas, coletivos de brasileiros que vivem no exterior e movimentos sociais de negros, mulheres, homoafetivos, sem teto, sem terra e todos aqueles que “melhoraram de vida” nos últimos quatorze anos. Lutam não apenas pela continuidade do mandato de Dilma Rousseff, mas pela Legalidade, pela Democracia e pelos Direitos, todos duramente conquistados em combates anteriores.
Todavia, a bem da verdade histórica, há de deixar-se claro que o maior beneficiário do golpe político em andamento é o grande empresariado nacional, que tem por real propósito, ao dar-lhe apoio e financiamento, a retomada na íntegra da condução da política econômica ,para fazê-la retroceder ao receituário neoliberal da década de 1990. Obtido o intento com a deposição de Dilma, os brasileiros sentirão, de novo, o que significa "pagar o pato" - como aquele amarelinho já estrategicamente estacionado na Avenida Paulista, em frente ao prédio da FIESP.
                                                                                                                                   MARIA