domingo, 22 de fevereiro de 2026

NÃO CHOREM APENAS POR CUBA

 


"Não nos enganemos crendo que tudo adiante será fácil,
talvez tudo adiante seja mais difícil."
FIDEL CASTRO, janeiro/1959



Em janeiro de 1959, uma pequena ilha do Caribe, ao largo do litoral norte-americano, foi notícia no planeta inteiro. O ditador do país, aliado dos EUA, fugia para Miami e tropas do Movimento Revolucionário 26 de Julho, lideradas por Fidel Castro, entravam em Havana.
Aqueles combatentes vindos das montanhas da Sierra Maestra eram bem menos numerosos que os soldados do exército oficial, mas a luta revolucionária que travavam estava impregnada de tanta ousadia e entrega que chamava e convencia, despertando consciências e vontade de lutar. Desde então, pelo tempo afora, o povo cubano não tem medido esforços para manter e consolidar sua Revolução.
Hoje, o caminho escolhido pelo império do norte para chegar à "solução final" com a Cuba Revolucionária é o da morte lenta por asfixia. Sem a necessidade de uma dispendiosa guerra "quente". Tendo como argumento, nas palavras de seu Presidente, a "ameaça extraordinária que A ILHA representa à segurança nacional estadunidense", está querendo tornar inquestionável o castigo imposto, arrogando-se o direito de defesa frente às ameaças que sofre constantemente por parte dos "terroristas" cubanos.
Como assim? Assim...
A catástrofe humanitária vislumbrada ao fim do túnel e o cenário de terra arrasada já em construção são, justamente, o objetivo estabelecido pelo governo Trump para dar a guerra por vencida. Ferindo de morte a ilha caribenha, vai manter de joelhos toda a América Latina. Vai acabar de vez com qualquer resquício da vontade de dizer NÃO FAÇO. Por longo tempo.
Não se pode dizer que isso seja uma novidade histórica. É bem sabido que pressões e bloqueios norte-americanos são praticados desde a vitória da Revolução, nos idos da década de 1960, quando o povo armado de Cuba enfrentou e venceu os "mariners" na praia Giron da Baía de Porcos, rechaçando uma invasão militar pretendida por John Kennedy. E declarando aos ventos ser Socialista a República Cubana a partir daquela data. Nas barbas "deles", em plena guerra fria, tornando-se símbolo da soberania popular.
Então, neste XXI nada de novo, a não ser a intensidade, típica do projeto neoliberal que domina o mundo, exigindo não apenas o silêncio das vozes divergentes, mas o "cancelamento" de todas as insurgências contra o opressor, destruidor da vida. É a tentativa de impor um futuro distópico, apagando o passado da memória comum para, no tempo presente, melhor aprisionar a humanidade como "cordeiro do capital", se lembrarmos Marx. Ainda assim, Cuba diverge. E se insurge. Dignidade e firmeza de propósitos não lhe tem faltado.
No entanto, a história nos mostra, ainda, os desafios colossais que tem enfrentado para tocar em frente. O primeiro deles, ainda na década de 1960, quando os ianques desencadearam um feroz bloqueio econômico, continuado e acentuado por muitos outros que vieram depois. Como aquele, da década de 1990, quando acabou a URSS e o apoio logístico de lá recebido foi encerrado. A ajuda necessária para continuar resistindo só foi retomada a partir de 1998, quando Hugo Chávez assumiu o governo da Venezuela.
Mas, embora todos os entraves, apesar das ações imperialistas sem fim e das omissões subservientes de sempre, provocadoras de um desabastecimento severo de produtos básicos, de uma limitação extrema ao comércio exterior e da exiguidade de recursos financeiros, tem dado globalmente  grandiosas lições de determinação coletiva na luta pela construção de uma outra realidade, que pode e deve existir.
Bloqueios e sanções, acentuadas como nunca d'antes, estão desvelando uma brutalidade cotidiana capaz de tornar a vida impossível, não apenas difícil.
O que vai adiantar a comida obtida, se a geladeira estiver desligada por falta de energia elétrica?
O que vão adiantar as vacinas produzidas, se não houver refrigeração para conservá-las?
Como seus profissionais da saúde vão seguir salvando pessoas, se não tiverem seringas, nem medicamentos ou aparelhos de raio-x?
Para que servirão os portos, se não chegarem  navios?
O plano imperialista, ao que parece, é continuar até Cuba quebrar por dentro. O que vai sobrar de uma sociedade empurrada até o limite para o fim dos tempos?
Mesmo isolada, Cuba está resistindo, como afirma Abel Prieto, Presidente da Casa de Las Américas, em carta recentemente dirigida a um companheiro de luta, o brasileiro Emir Sader, que a divulgou.
Gabriel Lopes, correspondente do jornal BR DE FATO em Havana, reconhece o caráter extremamente crítico do momento, que, além do tudo já dito, expõe os cubanos a problemas no abastecimento de água, na coleta de lixo, no funcionamento de escolas, universidades, postos de saúde e hospitais.
Em panorama tão sombrio, há espaço para o otimismo da vontade? Com tantas e tão graves carências, é ainda possível a permanência da chama revolucionária no Mar do Caribe?
Quanto ao Brasil, "tem obrigação de comprar a briga por Cuba", como diz Breno Altman. Porque a Cuba Socialista há mais de 60 anos vem prestando imenso auxílio à luta popular feita em nosso território. À luta por uma sociedade justa. À luta pelo Socialismo.
Quantos brasileiros pobres foram salvos por médicos cubanos que andarilharam onde médicos nativos não querem andar?
Qual país, mais do que Cuba, acolheu os que lutavam contra o regime militar instalado  no país por 21 anos e precisavam de um chão seguro onde pisar?
Como esquecer seu apoio intenso ao MST e à CAMPANHA LULA LIVRE?
Mas comprar esta briga é ir além das manifestações diplomáticas do Presidente Lula. É preciso encontrar formas de fazer chegar a ajuda necessária aos companheiros cubanos. Porque sempre há formas.
A organização de COMITÊS DE AJUDA SOLIDÁRIA AO POVO CUBANO deve ser estimulada nos partidos políticos de esquerda, nas escolas e universidades, nos sindicatos, nos diretórios acadêmicos, nos movimentos sociais mais diversos. Além disso, há que se contar a história. Em todos os lugares onde mais de dois estiverem reunidos.
Para um(a) latino-americano(a), sair em defesa de Cuba é sair em defesa de si mesmo(a). Hoje é Cuba, e também a Venezuela, amanhã pode ser qualquer país cuja orientação política contrarie Washington.  E haverá eleições por aqui em 2026... Será uma guerra suja, muito suja. Os precedentes estão postos, disponíveis ao uso, segundo a lei do mais forte. Há perigo na esquina. Se Cuba estiver vencida, ficará mais fácil para nosso inimigo porque estará a Latino-América toda sem o farol que iluminou a vida daquelas e daqueles que nela lutaram para mudar as coisas. Ficará um escuro tão denso que vai impedir até a possibilidade de enxergar primaveras, mesmo se com os olhos da imaginação.
Por isso, camaradas, não chorem apenas por Cuba.
Chorem também por nós. 



                                                                                                            MARIA


"... esta nova Cuba, que avança para o futuro sem medo, disposta a trabalhar cada dia com mais afinco, a ser cada vez mais merecedora disso que hoje somos para toda a América: seu farol mais alto, sua esperança mais grandiosa, sua lição mais importante!"
ERNESTO GUEVARA, novembro/1961
Universidade de Havana

domingo, 21 de setembro de 2025

O PASSADO QUE NÃO PASSA

 

"Nos arames em que foi 
peão pendurado,
deixem seus olhos fixos
Nos chicotes e talas,
nos palas cardados,
deixem seus olhos fixos
Nos esculachados que perambulam
sem tréguas,
deixem seus olhos fixos
                        ...  ...
Sérgio Jacaré, 1990

 


Como em todo o Setembro, faz tempo, os "gaúchos" festejam a si mesmos, cantam suas façanhas, desfilam suas bravatas, dançam sua hipotética superioridade. Louvam um passado harmonioso que não existiu, que não é histórico. É só lenda. A celebração cívica da "semana farroupilha" é organizada e coordenada pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho, criado em 1948 no seio da sociedade civil, e com o apoio oficial do governo do Estado desde 1975. Lembrando aqui que tradição é a transmissão de costumes, crenças e valores múltiplos através das gerações humanas, constituindo elemento fundamental na construção e manutenção da identidade cultural de um povo. Mas tradicionalismo é um movimento ideológico que quer manter viva uma única tradição - a do "patrão".  E tem por objetivo camuflado justificar a opressão de classe no tempo presente. Afinal, sempre foi assim, um patrão tão bom.
O MTG, desde logo, escolheu a guerra farroupilha como seu mito fundador , seu ponto de partida simbólico,  como se tivesse sido uma guerra popular por libertação do "povo" quando , na verdade, só  aconteceu para defender os interesses dos estancieiros latifundiários destas plagas. Suas lideranças jamais acenaram com a distribuição de terra para os peões nem com o fim da escravidão para os cativos. Em 1964, mostrou-se, de pronto, apoiador da "revolução" que ia livrar o Brasil do comunismo. Por isso, ainda naquele ano, foi incluído  no projeto cultural da ditadura como elemento agregador de gentes em torno do conservadorismo político e social. E a "semana farroupilha" foi oficialmente criada. Serviu como luva às intenções golpistas de criar uma base social que defendesse e legitimasse o arbítrio. Espalharam-se  "galpões crioulos" pelos colégios, clubes de amigos e quartéis da brigada militar.
Ao final do período ditatorial, estava enraizado de tal forma o conservadorismo sócio-político na sociedade sul-rio-grandense que o primeiro governador eleito pelo voto depois de 21 anos de chumbo foi Jair Soares, um homem do "regime" que, em 1985, sancionou a lei que estabelecia o "dia do gaúcho".
Embora algumas tentativas tenham sido feitas, ali no final do século XX, para desvelar culturalmente os engodos desse tradicionalismo regional, muito pouco se avançou na direção pretendida.
Entre os símbolos "tradicionalistas", é destaque consensual o chimarrão,  visto como expressão maior da nossa hospitalidade e da nossa cordialidade. Numa roda de mate cabem todas as classes, é o que se espalha aos ventos. Mas não cabem, é só mito. 
O termo chimarrão, do espanhol  "cimarrón", originalmente significava bicho solto, de rumo incerto, como os cães sem dono, ou o gado selvagem espalhado pelo sul da América, desde a derrocada das estâncias jesuíticas. Cão chimarrão, gado chimarrão. Assim, nos idos do século XVII. Pejorativamente, passou a significar também gentes. Aquela gente xucra, bruta e andarilha, sem eira nem beira. Chimarrões foram considerados todos os peões daquele tabuleiro. Bem assim, pelo tempo a fora.
Por extensão de identidade, acabou virando sinônimo de "água da erva", bebida amarga  apreciada pelos chimarrões humanos, que lhe davam o nome de mate, do quíchua "mati". E a usavam nos rituais de acolhimento com que os povos guarani, quíchua e aimará recebiam suas visitas. O gosto de "chimarrear" dos povos originários foi se espalhando igualmente entre a mestiçagem forçada que chegava para trabalhar nas atividades da pecuária nascente. Mas custou muito para entrar nos avarandados da "casa grande". E lá só chegou quando se descobriu que ajudava a amenizar as ressacas do patrão. 
Antes disso, bem no princípio, tinha sido a voz domesticadora dos jesuítas, prometendo aos povos originários destes "pagos" uma vida comunitária idealizada, forjada pelo delírio imperialista da então poderosa igreja católica.
Depois, em meados do século XVIII, a inescapável desventura da dispersão, ao fim das guerras guarani-. missioneiras. Uma sobrevivência errante, o mais das vezes solitária, caçando gado solto para comer a carne e vender o couro, com as mãos qualificadas pelos padres para o ofício pastoril da civilização branca, deixando ver pelas feições do rosto a impotência das mães chinas frente a sanha estupradora dos invasores europeus. E no peito carregando o medo de cair nas mãos de um "bandeirante". Não eram bem vindos nos "povos" por onde passavam, aqueles "índios vagos".
Pejorativamente, começaram a receber também a alcunha de "gaudérios" ou "gaúchos". Gaudério querendo dizer "vadio". Gaúcho, do espanhol gaucho, querendo dizer "sem pai", mas também "filho da china" Julgados como salteadores, combatidos pela sociedade em construção, discriminados pelos "de bem". Eles, que nada tinham, eram uma ameaça para os que tinham muito. Assim diziam os que tinham muito.
Contudo, no tempo em que seguiam a pé pelo chão rio-grandense, mestiçados pela força bruta, ia por aqui sendo formado, paralelamente, o latifúndio. O modo de usurpação do solo escolhido pela monarquia portuguesa para garantir  "seus"  direitos sobre um vasto território ao sul do Trópico de Capricórnio. Enquanto "comandâncias militares" e "barras diabólicas" protegiam a costa oceânica. O gado chimarrão deixado pelos jesuítas e multiplicado livremente pelos campos, uma riqueza "pronta", dádiva da natureza, foi o atrativo oferecido pelo rei aos candidatos à terra prometida. Também como riqueza pronta, daí por diante estariam disponíveis para o trabalho campeiro aqueles desgarrados  da vida colonial.  
O tempo passou, a terra foi cercada, a porteira fechada,  a concepção estancieira de mundo instaurada e o colonialismo latifundiário precisou realmente absorver aqueles "vagos". Só eles sabiam o manejo adequado da gadaria xucra que continuava resistindo à vida nos currais. Temporários, diz a lenda que por vontade própria. Não gostavam de trabalho "fixo".
Vieram também as guerras caudilhescas de fronteira e os peões/gaúchos/chimarrões precisaram ser soldados. Tal qual os contingentes negros escravizados que, originalmente, tinham vindo para sofrer e morrer nas charqueadas. Colocados sempre na linha de frente. Se por vontade própria, a lenda não conta.
Esta é a história escondida, aquela que não vira nome de rua nem de praça. Que não usa bombacha nem vestido com lacinhos. Muito menos botas ou lenços coloridos.
Assim, o Estado do Rio Grande do Sul chega ao século XXI trazendo em sua "mala de garupa" uma bagagem ideológica forte o suficiente para fazer parecer real o que real não é. Considerando aqui ideologia com o significado que lhe deu Marx - uma falsa visão da realidade propagada pela classe dominante para mais facilmente continuar dominando.
O "pago" ponta-sul do Brasil, tão orgulhoso de suas peculiaridades geopolíticas, autoproclamado tão "aguerrido e bravo", querendo-se tão único dentro da brasilidade, está hoje sendo "moldado" pelo governo Eduardo Leite, eleito e reeleito pelo voto, para servir com exclusividade aos donos do poder econômico. Desde que chegou ao poder, alicerçado no modelo neoliberal mais puro, nada tem feito a não ser submeter o chão e o povo do RS aos interesses do capital em sua fase contemporânea. Para isso, ataca em todas as direções, mas escolheu como prioridade o tripé ESCOLA PÙBLICA - EMPRESAS ESTATAIS - POLÌTICA  AMBIENTAL, com a cumplicidade do Parlamento Estadual, majoritariamente seu.
Arremete violentamente contra servidoras e servidores públicos, desmanchando no ar suas carreiras, arrochando seus salários, tirando-lhes a dignidade profissional, tudo para que não consigam cumprir a tarefa que lhes cabe - servir ao público.
Concomitantemente, vem desmantelando o Código Ambiental do Estado em favor do agronegócio da soja e da casta  "invisível" da especulação imobiliária urbana e rural, sem que as vozes levantadas em contrário consigam vencer os gritos a favor, ampliados pela RBS. Nem a tragédia de 2024 conseguiu provocar uma mudança nesse rumo. Mesmo com "um pingo no telhado e o pampa indo embora". 
E não fica por aí o esforço governamental de Eduardo Leite para deixar o Estado mais pobre e sua escória dominante mais rica. Com "o golpe do plebiscito", tirou o voto popular da jogada e logrou privatizar as históricas CEEE e CORSAN, em vitória avassaladora sobre a luta social sul-rio-grandense. Longa e dura tinha sido a resistência, Muito grande a dor da perda.
No entanto, apesar de tantas "façanhas", tem aparecido nas pesquisas como o preferido dos "gaúchos" para o Senado da República. Não se sabe bem o porquê. Talvez seja apenas por manter acesa no Piratini uma "chama crioula" que não ilumina, cega.



                                                                                       MARIA 
















segunda-feira, 8 de setembro de 2025

CÁLICE

 

"Pai, afasta de mim esse Cálice, 
de vinho tinto de sangue"
Chico e Gil,1973




Não há tentativa de golpe no Brasil. Há um golpe em andamento. Desde 2016. Em etapas. Primeiro impediram Dilma, com o Supremo, com tudo. E um Congresso, o do tchau querida, que parecia "o mais canalha". Então começaram a atravessar "a ponte para o futuro", com Temer comandando a destruição dos direitos trabalhistas conquistados com suor e sangue ao longo do século XX e, de quebra, levaram junto a escola pública, com a destruição do ensino médio e o florescimento dos colégios cívico-militares. 
Depois prenderam  Lula, num processo comandado pela CIA, tendo a Lava Jato e o Supremo como "os instrumentos da hora". Para colocar na presidência da república alguém capaz de destruir o país, alimentando a chama ressurgida do fascismo social. E eleger um Congresso "ainda mais canalha". Além de corroer por dentro todas as instituições ditas democráticas.
A destruição foi tanta que as próprias escórias dominantes facilitaram, com o Supremo tirando o pé, a volta de Lula em 2022, mas ali-ali. Com a rédea curta de um Congresso ainda pior que "o mais canalha" anterior. E a besta-fera solta. Veio o dezembro incendiário, as estradas atravancadas pelos caminhões e os acampamentos nos quartéis.
E o 08 de janeiro. Que, para nossa "salvação", destruiu o relógio de D. João e a cadeira do Moraes. Maus modos que nem a burguesia cheirosa suportou. Estava "criado o clima" para acabar nos tribunais, mas não encerrou o golpe. São inúmeras as evidências. A maior de todas é a luta pela anistia dos participantes, dos organizadores e dos mentores do "já feito". Para que possam continuar fazendo. 
Anistiar golpistas significa abrir ainda mais as portas da política nacional para o capitalismo neoliberal e, em especial, para o imperialismo norte-americano.
Apesar de tudo isso, setembro de 2025 começou marcado por uma ofensiva bolsonarista que empurrou LULA III outra vez para as cordas. O que se viu, continuando agosto, foi o levante no Congresso ganhar força com Tarcísio à frente, as "redes" dominadas amplamente pela direita e Lula, lúcido, pedindo um socorro que não veio.
O 07 de Setembro "do grito pela soberania" mostrou apenas a fragilidade ou a omissão das direções partidárias de esquerda, dos sindicatos e dos movimentos populares Brasil a dentro. Parece que a maioria tinha algo mais importante a fazer do que lutar no chão da rua, onde deviam estar mas não estiveram. 
No final do dia, o resultado foi mais um fracasso da luta pela vida. Porque é da vida que se trata. Dos excluídos, precarizados, adoecidos, usados e abusados pelo projeto de poder hoje hegemônico.
Em São Paulo, cidade emblemática, enquanto os que "gritavam" por tais vidas não chegaram a dez mil, o fascismo levava à avenida mais de quarenta mil cabeças de gado cobertas por uma gigantesca bandeira do império do capital. E foi assim em todo o país, não há como negar.
Mais dia menos dia, condenado o inominável no Tribunal "Superior", o que vai acontecer? Os navios da IV Esquadra vão deixar o litoral da Venezuela e atracar no Paranoá? As brigadas comandadas por Silas Malafaia vão fechar os "antros de perdição comunistas"? O agropop vai acelerar a morte das florestas e dos pampas? A vida boa dos que têm vida boa vai continuar igual enquanto a vida difícil dos que têm vida difícil vai ficar cada vez mais difícil?
Pensando nisso, o que há mesmo para  ser comemorado neste setembro estrelado pela bandeira do opressor ?
Por favor, alguém responda...

                                                                                            MARIA

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

AO GRITO, CAMARADAS

 


" A nossa Pátria é o mundo, nossos compatriotas são os operários e os estrangeiros, para nós, são todos os capitalistas."   
Manifesto da Federação Operária, 1908




Lula tem crescido nas pesquisas de opinião divulgadas por aí. Por que será? Assim, de repente, depois de tantos meses em queda. Será que o povo está, finalmente, abrindo os olhos? Ou será que foi a valentia dele, frente aos ataques do império do norte? Ou tudo junto e misturado? As teses multiplicam-se...
Uma coisa é certa, no entanto. Pesquisas eleitorais não são garantias de futuro, são apenas probabilidades no presente. E, assim mesmo, por inúmeros fatores, bastante frágeis. Por isso, não cabe no momento uma euforia ingênua ou prepotente.
È bom lembrar  que a maior potência imperialista do mundo tem deixado nítido que pretende continuar e aprofundar, em nova fase, a guerra "híbrida" que faz ao Brasil desde o primeiro governo Lula, no alvorecer deste XXI. Ao longo do século XX, a tática tinha sido outra e a guerra se chamava "fria".
A fase atual começou em 2008, quando, com a justificativa de combater o narcotráfico nos "mares do sul" recriou sua IV frota que passou a circular em águas latino-americanas. O presidente deles era Bush, "o terror do terror". Na Venezuela estava Chaves e no Brasil estava Lula e o pré-sal recém descoberto. Momento tenso.
Depois veio Obama, "o nobel da paz", colocando a CIA a bancar a Operação Lava-Jato, a espionar a Dilma e incentivar o golpe de 2016. O objetivo era acabar com a resistência mínima dos governos liderados pelo PT aos avanços neoliberais começados com Collor e acentuados  por FHC. 
Agora veio Trump, o magnífico, que quer o chão das terras "raras" para, com ele, alimentar as plataformas digitais do capitalismo neoliberal. E não vai desistir assim tão fácil. Tem a seu lado as escórias dominantes entre nós, representadas  majoritariamente nos espaços parlamentares do país em todos os níveis -  nacional, estadual e municipal. E, com elas, pretende construir  2026. No grito. Este é o projeto golpista em curso e esta longe de terminar. A condenação da quadrilha Bolsonaro não será a batalha final.
Lula tem feito o embate sozinho. Por mais que chame e provoque. As organizações da esquerda política, as frentes populares, os movimentos sociais, as centrais e federações sindicais, têm ficado na "torcida", mas sem levantar nem ao menos para fazer "olas". Até quando?
O Rio Grande do Sul, o Brasil e o Mundo precisam que a luta social grite aos ventos e em massa. Por justiça social, por Gaza e pelo Congo, pelo direito ao tempo e à preguiça, pelo amor livre para todes, pela distribuição da riqueza, pela vida no Planeta Terra.
No dia 7 de Setembro ,  o Grito dos Excluídos pode ser a oportunidade para levantar a voz coletiva vinda do chão da rua, como um trovão das entranhas, ecoando por baixo, querendo explodir. Em defesa da soberania nacional e da nossa humanidade. De braços dados.
Mas pode ser também mais uma oportunidade perdida, se poucos forem os presentes. Como uma recente na Câmara de Vereadores da cidade do Rio Grande, que o povo não ocupou para impedir a aprovação de uma moção de apoio à anistia do inelegível. E nossas vereadoras e vereadores ficaram gritando sozinhos.


                                                                                           MARIA

terça-feira, 26 de agosto de 2025

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

 


Vem, vamos embora,
que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora, 
não espera acontecer
            Geraldo Vandré



O Partido dos Trabalhadores está "sob nova direção", eleita em 6 de julho, com a participação de cerca de 25% de seus filiados no dia da votação. Só.
De um "novo" ou "nova" qualquer, o que se espera é, no mínimo, um passo adiante na caminhada. No caso em questão, o PT, imprescindível é que seja um passo à esquerda. Para garantir a luta. Para resgatar a esperança. Porque o tempo é de guerra. Mais uma guerra imperialista. Quem finge não ver ou acredita que é possível ir levando a vida no ritmo de sempre, olhando apenas para o próprio umbigo, não compreende o que está ocorrendo.
Guerra quente e guerra fria. Guerras híbridas.
Palestina, Venezuela, República do Congo, Cuba, Sudão, Irã, Ucrânia, são os cenários mais visíveis da guerra "quente". Da guerra "fria", o palco central é, hoje, o Brasil, mas todo o mundo pobre pode nela ser encontrado.
O PED, no entanto, não expressou uma intenção de mudança no espaço petista para melhor posicionar-se no campo de batalha.. As mesmas correntes de pensamento, já hegemônicas no Partido faz tempo, foram as vitoriosas outra vez. A tendência é que continue a política até aqui praticada. As decisões cada vez mais centralizadas, os diretórios cada vez mais "de informes", a formação política cada vez mais superficial, as ações diretas cada vez mais escassas, a democracia interna cada vez mais desrespeitada, as campanhas eleitorais cada vez mais dentro da lógica capitalista, a questão financeira cada vez mais envolvida em véus. E os resultados cada vez mais pífios, do ponto de vista da classe trabalhadora.
Um Partido que nasceu na esquerda, como instrumento da luta entre as classes, ao administrar o capitalismo foi se tornando um partido de centro, digno representante da política tradicional burguesa, acomodado ao fundo partidário, ao fundo eleitoral, às emendas parlamentares individuais. O interesse de alguns sobrepondo-se ao interesse coletivo.
Dura realidade. Mas ainda há quem queira transformá-la. E, como dizia Paulo Freire, o grande mestre do século XX, a realidade só é até que a gente faça alguma coisa.
Nosso objetivo não pode continuar sendo "melhorar" o capitalismo. Precisa ser mais ousado e ir além, em busca de um futuro socialista.
Urge um Manifesto que denuncie, intensa e profundamente, a contradição existente entre o capital e a vida. Para que se possa anunciar em 2026 um projeto LULA IV radicalmente democrático, propulsor  de mudanças estruturais, humanistas e anticapitalistas.
Urge também pernas na rua, bandeiras ao vento, vontades de fazer diferente, imagens de futuro, além de estudo e muito compromisso.
Qual a disposição do Partido dos Trabalhadores para liderar um processo assim?
No momento,  muito pouca. Ou, talvez, nenhuma.



                                                                                                    MARIA


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

CINEMA DE CALÇADA

 



O texto que segue foi escrito no final de agosto de 2008. Celebrava a inauguração do Cine Dunas Cidade. Foi fruto de um  gostar profundo, só traduzido na íntegra pela palavra amigo. Mas foi também fruto da intenção objetiva de registrar o significado histórico dos "cinemas de calçada" na construção da sociabilidade urbana.
Hoje, com as portas já fechadas pelo tempo e as luzes apagadas pela pandemia, o Cine Dunas permanece na memória da cidade como o ponto de encontro  e resistência que sempre foi. Fazendo sua própria história, foi tecendo junto  parcela significativa da história do Rio Grande. 
Neste agosto de 25, veio parar no "mariabonita"  como testemunho de um tempo vivido.



                                                                    "O amor é simples. E as coisas simples, as devora o tempo", escreveu um poeta faz tempo. " Nem sempre", escreveu um outro.





                                                               CINEMA  DE CALÇADA


Rio Grande teve inaugurada, em 25 de agosto passado, uma nova sala de cinema - o Cine Dunas Cidade. Com isso, resgata-se entre nós a tradição cultural dos cinemas de calçada.
Do Cine Teatro Carlos Gomes que, no início da década de 60 do século XX, já estava com as cadeiras sem estofo, mas, nas lotadas "matinées" de domingo, ainda recebia a gurizada que lá ia namorar e ver filmes de "mocinho", alguns torcendo pelos índios. A máquina sempre falhava, acendendo as luzes de repente e deixando ver outros tantos "filmes" espalhados  pela sala. Foi nele, nessa mesma  época, que as estudantes do Curso Normal do Juvenal Miller, que faziam teatro, puderam assistir "Navalha na Carne", com Plínio Marcos. Depois, a professora justificou-se afirmando não saber que a peça era tão "forte".
Do Sete de Setembro, que era o cinema da segunda-feira. Requintado, estofado verde, filmes "cult". Nele, além do filme, imperdíveis eram as notícias do Canal 100 exibidas no início de cada sessão. Era nele que se viam as jogadas e os maravilhosos gols  feitos pelo Garrincha uma semana antes. Na saída, um docinho no "Sol de Ouro".
Do Glória, majestoso pela amplidão, que atraia e acolhia multidões. Para a sessão de domingo, era preciso chegar cedo ou não se encontraria desocupado nenhum dos seus dois mil lugares. Entrava-se, "guardava-se" um lugar e se ia passear em seus corredores-avenida. Via-se a turma da esquerda, a turma da Luís Loréa, a turma do fundão...Quem chegasse cedo, recebia também "O Peixeiro", um jornalzinho com folhas cor-de-rosa e versos de J.G. de Araújo Jorge.
Sabemos que as lembranças, como os cheiros, chegam vindas não se sabe de onde e que por elas o passado se faz presente. Mas o jovem Cine Dunas resgata mais do que os rastros deixados pela história. Resgata espaço de trabalho. Em sua equipe de profissionais encontram-se Cleber e Simão, que um dia atuaram no antigo Cine Glória. Hoje podem ensinar o que aprenderam, um elo foi estabelecido. O filme recomeça, iluminando o conhecimento construído na experiência.
Em tempos de "império da telinha", em que o medo ou o cansaço deixa os humanos incomunicáveis na dita era da comunicação, o cinema pode ser, além de entretenimento e cultura, um ponto de encontro. Por isso, é preciso dizer às crianças e aos jovens desta geração "telinha" que, de vez em quando, faz falta uma "telona". Para que se olhe grande, para que se olhe mais. Para que se olhe junto.
E, olhando junto com todas e todos que já foram conhecer o Cine Dunas Cidade, bom também é perceber que a ousadia não morreu. Ainda há quem ouse. Porque é de ousadia que se trata quando se fala em abrir cinemas neste alvorecer do XXI.
Cleyton e Janete ousaram ao abrir o Cine Dunas Cassino. Agora ousaram mais ao presentear também a cidade com a belíssima sala da Rua Andradas, de onde até se pode ver, das sacadas, os "fundos do Cine Sete".
É uma ousadia que merece o respeito e o prestígio de todas e todos que acreditam ser um Ponto de Encontro algo a ser respeitado e prestigiado.
Numa terra de muitos ventos trazendo e levando areias, que os braços dos rio-grandinos sejam fortes o bastante para reter estas Dunas no Cassino e na Cidade.


                                                                                                       MARIA

sexta-feira, 18 de julho de 2025

PARA ISSO FIZEMOS L

 



Brasileiras e brasileiros que viveram o século XX, para não dizer injustamente que só os jovens "não viveram" o pior e o melhor da nossa história, NUNCA tinham  ouvido um Presidente da República dizer em rede nacional, na tv ou pelo rádio, o que Lula disse ontem sobre os Estados Unidos da América do Norte. Ele denunciou, a todos os ventos, mais uma guerra do império do norte contra um país latino-americano, que é o que somos. Deixou nítidos os motivos e o pretexto do governo norte-americano para iniciá-la. Os motivos são o medo que sentem do fortalecimento dos BRICS, onde o B inicial quer dizer BRASIL, na sua jornada em busca do multilateralismo sócio - econômico mundial e da "independência" do nosso sistema  judiciário, tão diferente da subserviência dos tempos da lava jato, que ousa hoje enfrentar as "big techs", ferramenta indispensável para a permanência global  do projeto capitalista em sua fase neoliberal. Só pretexto é a defesa do inelegível, indiciado por tentativa de golpe de Estado. A ignomínia da extrema direita brasileira, bem representada pela "familícia", foi de valor inestimável para que a "águia" mostrasse as garras.
O Presidente do Brasil, como nunca d'antes, repudiou veementemente a "chantagem inaceitável", as ameaças, as informações falsas, a tentativa de intimidação do Supremo Tribunal Federal, o ataque à soberania nacional, sem meias palavras.
Além disso, mostrou sua indignação com os traidores da pátria, que vestem camisetas amarelas da seleção brasileira enquanto continuam batendo continência para a bandeira do país "de Trump". Todos contaminados pela ganância capitalista ou iludidos pelo "sonho" americano da prosperidade individual.
Como recado final, um aviso: "O Brasil é dos brasileiros" e o Congresso Nacional já aprovou a Lei da Reciprocidade. Vai ter luta!
Do ponto de vista histórico, foi uma noite memorável, inédita para todas e todos que até aqui fizeram e viveram a história do Brasil. Foi para vivê-la que fizemos o L
No entanto, é bom lembrar que na história até hoje vivida nunca ganhamos uma guerra contra eles. O que virá a seguir ainda não é história. Logo, não pode ser escrito. Ainda está por ser feito.
Mas talvez tenha começado. Afinal, Bolsonaro amanheceu de tornozeleira.
" O que a vida pede é coragem" diria a grande Dilma. De dizer não, completaria Guimarães Rosa.

                                                                                              MARIA 


" Um dia as veias abertas da América Latina serão transformadas nos caminhos da libertação."
EDUARDO GALEANO