"Não nos enganemos crendo que tudo adiante será fácil,
talvez tudo adiante seja mais difícil."
FIDEL CASTRO, janeiro/1959
Em janeiro de 1959, uma pequena ilha do Caribe, ao largo do litoral norte-americano, foi notícia no planeta inteiro. O ditador do país, aliado dos EUA, fugia para Miami e tropas do Movimento Revolucionário 26 de Julho, lideradas por Fidel Castro, entravam em Havana.
Aqueles combatentes vindos das montanhas da Sierra Maestra eram bem menos numerosos que os soldados do exército oficial, mas a luta revolucionária que travavam estava impregnada de tanta ousadia e entrega que chamava e convencia, despertando consciências e vontade de lutar. Desde então, pelo tempo afora, o povo cubano não tem medido esforços para manter e consolidar sua Revolução.
Hoje, o caminho escolhido pelo império do norte para chegar à "solução final" com a Cuba Revolucionária é o da morte lenta por asfixia. Sem a necessidade de uma dispendiosa guerra "quente". Tendo como argumento, nas palavras de seu Presidente, a "ameaça extraordinária que A ILHA representa à segurança nacional estadunidense", está querendo tornar inquestionável o castigo imposto, arrogando-se o direito de defesa frente às ameaças que sofre constantemente por parte dos "terroristas" cubanos.
Como assim? Assim...
A catástrofe humanitária vislumbrada ao fim do túnel e o cenário de terra arrasada já em construção são, justamente, o objetivo estabelecido pelo governo Trump para dar a guerra por vencida. Ferindo de morte a ilha caribenha, vai manter de joelhos toda a América Latina. Vai acabar de vez com qualquer resquício da vontade de dizer NÃO FAÇO. Por longo tempo.
Não se pode dizer que isso seja uma novidade histórica. É bem sabido que pressões e bloqueios norte-americanos são praticados desde a vitória da Revolução, nos idos da década de 1960, quando o povo armado de Cuba enfrentou e venceu os "mariners" na praia Giron da Baía de Porcos, rechaçando uma invasão militar pretendida por John Kennedy. E declarando aos ventos ser Socialista a República Cubana a partir daquela data. Nas barbas "deles", em plena guerra fria, tornando-se símbolo da soberania popular.
Então, neste XXI nada de novo, a não ser a intensidade, típica do projeto neoliberal que domina o mundo, exigindo não apenas o silêncio das vozes divergentes, mas o "cancelamento" de todas as insurgências contra o opressor, destruidor da vida. É a tentativa de impor um futuro distópico, apagando o passado da memória comum para, no tempo presente, melhor aprisionar a humanidade como "cordeiro do capital", se lembrarmos Marx. Ainda assim, Cuba diverge. E se insurge. Dignidade e firmeza de propósitos não lhe tem faltado.
No entanto, a história nos mostra, ainda, os desafios colossais que tem enfrentado para tocar em frente. O primeiro deles, ainda na década de 1960, quando os ianques desencadearam um feroz bloqueio econômico, continuado e acentuado por muitos outros que vieram depois. Como aquele, da década de 1990, quando acabou a URSS e o apoio logístico de lá recebido foi encerrado. A ajuda necessária para continuar resistindo só foi retomada a partir de 1998, quando Hugo Chávez assumiu o governo da Venezuela.
Mas, embora todos os entraves, apesar das ações imperialistas sem fim e das omissões subservientes de sempre, provocadoras de um desabastecimento severo de produtos básicos, de uma limitação extrema ao comércio exterior e da exiguidade de recursos financeiros, tem dado globalmente grandiosas lições de determinação coletiva na luta pela construção de uma outra realidade, que pode e deve existir.
Bloqueios e sanções, acentuadas como nunca d'antes, estão desvelando uma brutalidade cotidiana capaz de tornar a vida impossível, não apenas difícil.
O que vai adiantar a comida obtida, se a geladeira estiver desligada por falta de energia elétrica?
O que vão adiantar as vacinas produzidas, se não houver refrigeração para conservá-las?
Como seus profissionais da saúde vão seguir salvando pessoas, se não tiverem seringas, nem medicamentos ou aparelhos de raio-x?
Para que servirão os portos, se não chegarem navios?
O plano imperialista, ao que parece, é continuar até Cuba quebrar por dentro. O que vai sobrar de uma sociedade empurrada até o limite para o fim dos tempos?
Mesmo isolada, Cuba está resistindo, como afirma Abel Prieto, Presidente da Casa de Las Américas, em carta recentemente dirigida a um companheiro de luta, o brasileiro Emir Sader, que a divulgou.
Gabriel Lopes, correspondente do jornal BR DE FATO em Havana, reconhece o caráter extremamente crítico do momento, que, além do tudo já dito, expõe os cubanos a problemas no abastecimento de água, na coleta de lixo, no funcionamento de escolas, universidades, postos de saúde e hospitais.
Em panorama tão sombrio, há espaço para o otimismo da vontade? Com tantas e tão graves carências, é ainda possível a permanência da chama revolucionária no Mar do Caribe?
Quanto ao Brasil, "tem obrigação de comprar a briga por Cuba", como diz Breno Altman. Porque a Cuba Socialista há mais de 60 anos vem prestando imenso auxílio à luta popular feita em nosso território. À luta por uma sociedade justa. À luta pelo Socialismo.
Quantos brasileiros pobres foram salvos por médicos cubanos que andarilharam onde médicos nativos não querem andar?
Qual país, mais do que Cuba, acolheu os que lutavam contra o regime militar instalado no país por 21 anos e precisavam de um chão seguro onde pisar?
Como esquecer seu apoio intenso ao MST e à CAMPANHA LULA LIVRE?
Mas comprar esta briga é ir além das manifestações diplomáticas do Presidente Lula. É preciso encontrar formas de fazer chegar a ajuda necessária aos companheiros cubanos. Porque sempre há formas.
A organização de COMITÊS DE AJUDA SOLIDÁRIA AO POVO CUBANO deve ser estimulada nos partidos políticos de esquerda, nas escolas e universidades, nos sindicatos, nos diretórios acadêmicos, nos movimentos sociais mais diversos. Além disso, há que se contar a história. Em todos os lugares onde mais de dois estiverem reunidos.
Para um(a) latino-americano(a), sair em defesa de Cuba é sair em defesa de si mesmo(a). Hoje é Cuba, e também a Venezuela, amanhã pode ser qualquer país cuja orientação política contrarie Washington. E haverá eleições por aqui em 2026... Será uma guerra suja, muito suja. Os precedentes estão postos, disponíveis ao uso, segundo a lei do mais forte. Há perigo na esquina. Se Cuba estiver vencida, ficará mais fácil para nosso inimigo porque estará a Latino-América toda sem o farol que iluminou a vida daquelas e daqueles que nela lutaram para mudar as coisas. Ficará um escuro tão denso que vai impedir até a possibilidade de enxergar primaveras, mesmo se com os olhos da imaginação.
Por isso, camaradas, não chorem apenas por Cuba.
Chorem também por nós.
MARIA
"... esta nova Cuba, que avança para o futuro sem medo, disposta a trabalhar cada dia com mais afinco, a ser cada vez mais merecedora disso que hoje somos para toda a América: seu farol mais alto, sua esperança mais grandiosa, sua lição mais importante!"
ERNESTO GUEVARA, novembro/1961
Universidade de Havana