segunda-feira, 4 de maio de 2026

A PLENÁRIA DAS CATURRITAS

 



"quando quero uma frase sem igual,
um verso totalmente inusitado, 
um lugar comum reinventado, 
primeiro abro a janela
e olho em volta..."
VERSO ESCRITO NO MURO
a procura de um autor





A cada amanhecer, 
faça chuva ou faça sol,
Nos fios que passam, mas ficam,
na frente da minha casa,
acontece uma plenária.
De caturritas.
Sempre lotada.
Uma balbúrdia quase o tempo inteiro.
Mas, de vez em quando, calam.
Talvez para ouvir o mundo, 
fico cá imaginando eu.
Os pardais, os bem-te-vis, os quero-queros,
os canarinhos, os papinhos-laranja.
E os cardeais.
E então penso nos motivos, nos assuntos, 
nos encaminhamentos.
No que me diria um biólogo.
Mas, de tudo, o que mais penso,
é como conseguem
lotar plenárias diariamente,
se até nós, povo da luta, não conseguimos mais?


                                                                                MARIA

CUBA LIVRE
POR TODAS E TODOS

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O PODER QUE IMPORTA

 


"Eu vou voltar aos velhos tempos de mim, 
vestir de novo meu meu casaco marrom
e sair por aí.
A bomba H quer explodir no jardim
para matar a flor.
Mas eu direi que não..."
CASACO MARROM
( D. Caymmi e Guarabira, na voz de Evinha, 1969 )  





Buscar compreender as questões nodais ordenadoras do mundo contemporâneo é pré-condição inescapável para que se comece a desordená-lo em favor dos milhões de incluídos, até agora, somente na fila da luta pelo pão de cada dia. Não será seguindo a lógica do opressor que as organizações da esquerda política vão avançar nesta desorganização imprescindível. Porque, se não é com tirania que se combate a tirania, então não será com política tradicional burguesa que se vai combater a política tradicional burguesa. Hoje, esta é a lição  a ser aprendida ou reaprendida no interior de qualquer organização da classe trabalhadora - mexer por dentro para melhor mexer lá fora. E a reflexão coletiva constitui o primeiro passo para que tal aprendizado aconteça. Mas está em desuso. Além disso, em todos os espaços ocupados por obra da luta social, a contradição existente entre o dito e feito há que ser superada. Sob pena de ter como resultado, a cada ocupação, apenas um pouco mais do mesmo. 
Para onde tais contradições e desvios do rumo original estão levando a luta?
Como transformar fazendo igual?
Perguntas por enquanto somente sussurradas pelos cantos. Sem respostas até aqui, porque nem ao menos consentidas no campo aberto do debate. Com o velho argumento de que, "na prática, a teoria é outra", têm sido abafadas sistematicamente as vozes dissidentes que tentam um "esquerda volver". Mas será ainda possível dar meia volta?
Por um bom período do século XX prevalecia no seio das organizações da classe trabalhadora justamente seu caráter de classe, que originava projetos de mundo construídos coletivamente. Ao mergulharem na institucionalidade por circunstâncias várias, tais instrumentos de luta foram sendo desfigurados pelas necessidades impostas principalmente por alianças eleitorais espúrias. Os projetos de mundo foram sendo substituídos por programas de governo elaborados em espaços cada vez mais restritos, "menos" coletivos. 
No XXI, o mesmo rumo, que tanto prometia. A ponto de fazer parecer desnecessária, e mesmo inconveniente,  a continuidade da mobilização popular e da formação de quadros como práxis revolucionária indispensável. 
O Partido que prenunciara, lá na década de 1980, uma remodelação da política como possibilidade efetiva no cenário histórico brasileiro e latino-americano e chegou priorizando a organização de base sobre a representação eleitoral, inseriu-se nesta realidade gradualmente. Hoje tem como objetivo ímpar o processo eleitoral. Por ele sacrifica tudo. Como se fosse resolver. Mas não resolve. Como todas, todos e todes podem ver. Se estiverem olhando.
De tudo o mais grave, no entanto, é o que se está ensinando à juventude. Não só por induzi-la a seguir um caminho  escolhido  sem participação coletiva, mas por fazê-la acreditar ser ele o único possível.
Militantes do saber necessário e da crítica consistente, da reflexão em roda e da investigação conjuntural é o que devem ser os andarilhos da utopia espalhados por aí. Para mostrar a quem chega a importância de se perguntar "Por quê?", lembrando-os também que a contestação da ordem vigente é a condição primordial para qualquer transformação  da realidade. E  o poder que realmente importa  é o poder dos que não têm poder algum, mas se juntam para construí-lo. É dele que poderá vir , um dia, a REVOLUÇÃO SOCIAL. 


                                                                                                     MARIA

                              

segunda-feira, 30 de março de 2026

COLUNA VERTEBRAL

 



"Desconfieis do trivial
e examinai, sobretudo,
o que parece habitual.
Em tempos tão duros, nada deve parecer natural.
Ou impossível de mudar.
Para o bem ou para o mal."
BERTOLD BRECHT



Nos dias de hoje é consenso, amplamente  divulgado pelas ciências da saúde, a importância dada ao movimento físico para garantir uma vida "com qualidade". Por isso, cresce o número de espaços públicos e privados que chamam à prática de atividades físicas. É bem verdade que muito mais privados do que públicos. Na imensa maioria das cidades, inclusive, ainda predomina uma arquitetura vital hostil às maiorias e ao meio ambiente.
Muito presente nos diálogos e monólogos do nosso tempo, a palavra qualificar tende a ser usada apenas em seu sentido positivo - "habilitar/melhorar" alguém ou alguma coisa para que FAÇA e SEJA no mundo.
No entanto, nesta tão neomoderna e propalada ânsia de "qualificar" a vida, bem pouco tem sido lembrada a "qualificação" da consciência, esta potência do ser, com textura  ainda tão misteriosa até mesmo para especialistas. E, para muitas e muitos, como João Pedro Stédile por exemplo, " o melhor espaço de gerar vontades..." até mesmo a de "qualificar a vida", não apenas de um ou  de alguns, mas de todas, todos e todes.
Por que será?
Talvez porque o atual projeto econômico e, consequentemente, político e social do capital, em sua fase mais perversa até aqui, esta que chamam neoliberalismo, assim o queira. E o exija  sorrateiramente. Por ser de seu interesse o predomínio das inconsciências. Para manter sua hegemonia no palco mundial da conjuntura. Para que a instabilidade do presente perdure. Para que o futuro demore. Ou não venha.
A palavra consciência vem do latim, significando, na origem, "um saber partilhado sobre o mundo ao redor". Um saber construído pela inserção no coletivo e que tem por objetivo, acima de tudo, gerar vontades. De aprender e ensinar. De ensinar para aprender um pouco mais. De corrigir o rumo. De fazer outra vez, quantas vezes forem necessárias.
Até a vitória um dia, quem sabe.
O processo que a faz florescer é visto pelo pensamento de esquerda como o sustentáculo da luta por um outro mundo possível e necessário. É complexo e exige compromisso. Começa no chão da rua, mas para completar-se, o melhor caminho parece ser a reflexão em roda, só ela capaz de ressignificar teoria e prática à luz da conjuntura. 
Formar e sentar nesta roda é a tarefa do momento para  filiadas e filiados de todas as organizações de luta da classe trabalhadora. Delas poderá sair fortalecida  a Consciência de Classe, Coluna Vertebral da Revolução que será feita um dia.

                                                                                 MARIA


"Não ter alcançado o ponto culminante é uma boa razão para continuar tentando. Por ser um compromisso  marcado com a própria consciência. E porque a noite ainda não caiu.
JOSÉ SARAMAGO
A Bagagem do Viajante

domingo, 22 de fevereiro de 2026

NÃO CHOREM APENAS POR CUBA

 


"Não nos enganemos crendo que tudo adiante será fácil,
talvez tudo adiante seja mais difícil."
FIDEL CASTRO, janeiro/1959



Em janeiro de 1959, uma pequena ilha do Caribe, ao largo do litoral norte-americano, foi notícia no planeta inteiro. O ditador do país, aliado dos EUA, fugia para Miami e tropas do Movimento Revolucionário 26 de Julho, lideradas por Fidel Castro, entravam em Havana.
Aqueles combatentes vindos das montanhas da Sierra Maestra eram bem menos numerosos que os soldados do exército oficial, mas a luta revolucionária que travavam estava impregnada de tanta ousadia e entrega que chamava e convencia, despertando consciências e vontade de lutar. Desde então, pelo tempo afora, o povo cubano não tem medido esforços para manter e consolidar sua Revolução.
Hoje, o caminho escolhido pelo império do norte para chegar à "solução final" com a Cuba Revolucionária é o da morte lenta por asfixia. Sem a necessidade de uma dispendiosa guerra "quente". Tendo como argumento, nas palavras de seu Presidente, a "ameaça extraordinária que A ILHA representa à segurança nacional estadunidense", está querendo tornar inquestionável o castigo imposto, arrogando-se o direito de defesa frente às ameaças que sofre constantemente por parte dos "terroristas" cubanos.
Como assim? Assim...
A catástrofe humanitária vislumbrada ao fim do túnel e o cenário de terra arrasada já em construção são, justamente, o objetivo estabelecido pelo governo Trump para dar a guerra por vencida. Ferindo de morte a ilha caribenha, vai manter de joelhos toda a América Latina. Vai acabar de vez com qualquer resquício da vontade de dizer NÃO FAÇO. Por longo tempo.
Não se pode dizer que isso seja uma novidade histórica. É bem sabido que pressões e bloqueios norte-americanos são praticados desde a vitória da Revolução, nos idos da década de 1960, quando o povo armado de Cuba enfrentou e venceu os "mariners" na praia Giron da Baía de Porcos, rechaçando uma invasão militar pretendida por John Kennedy. E declarando aos ventos ser Socialista a República Cubana a partir daquela data. Nas barbas "deles", em plena guerra fria, tornando-se símbolo da soberania popular.
Então, neste XXI nada de novo, a não ser a intensidade, típica do projeto neoliberal que domina o mundo, exigindo não apenas o silêncio das vozes divergentes, mas o "cancelamento" de todas as insurgências contra o opressor, destruidor da vida. É a tentativa de impor um futuro distópico, apagando o passado da memória comum para, no tempo presente, melhor aprisionar a humanidade como "cordeiro do capital", se lembrarmos Marx. Ainda assim, Cuba diverge. E se insurge. Dignidade e firmeza de propósitos não lhe tem faltado.
No entanto, a história nos mostra, ainda, os desafios colossais que tem enfrentado para tocar em frente. O primeiro deles, ainda na década de 1960, quando os ianques desencadearam um feroz bloqueio econômico, continuado e acentuado por muitos outros que vieram depois. Como aquele, da década de 1990, quando acabou a URSS e o apoio logístico de lá recebido foi encerrado. A ajuda necessária para continuar resistindo só foi retomada a partir de 1998, quando Hugo Chávez assumiu o governo da Venezuela.
Mas, embora todos os entraves, apesar das ações imperialistas sem fim e das omissões subservientes de sempre, provocadoras de um desabastecimento severo de produtos básicos, de uma limitação extrema ao comércio exterior e da exiguidade de recursos financeiros, tem dado globalmente  grandiosas lições de determinação coletiva na luta pela construção de uma outra realidade, que pode e deve existir.
Bloqueios e sanções, acentuadas como nunca d'antes, estão desvelando uma brutalidade cotidiana capaz de tornar a vida impossível, não apenas difícil.
O que vai adiantar a comida obtida, se a geladeira estiver desligada por falta de energia elétrica?
O que vão adiantar as vacinas produzidas, se não houver refrigeração para conservá-las?
Como seus profissionais da saúde vão seguir salvando pessoas, se não tiverem seringas, nem medicamentos ou aparelhos de raio-x?
Para que servirão os portos, se não chegarem  navios?
O plano imperialista, ao que parece, é continuar até Cuba quebrar por dentro. O que vai sobrar de uma sociedade empurrada até o limite para o fim dos tempos?
Mesmo isolada, Cuba está resistindo, como afirma Abel Prieto, Presidente da Casa de Las Américas, em carta recentemente dirigida a um companheiro de luta, o brasileiro Emir Sader, que a divulgou.
Gabriel Lopes, correspondente do jornal BR DE FATO em Havana, reconhece o caráter extremamente crítico do momento, que, além do tudo já dito, expõe os cubanos a problemas no abastecimento de água, na coleta de lixo, no funcionamento de escolas, universidades, postos de saúde e hospitais.
Em panorama tão sombrio, há espaço para o otimismo da vontade? Com tantas e tão graves carências, é ainda possível a permanência da chama revolucionária no Mar do Caribe?
Quanto ao Brasil, "tem obrigação de comprar a briga por Cuba", como diz Breno Altman. Porque a Cuba Socialista há mais de 60 anos vem prestando imenso auxílio à luta popular feita em nosso território. À luta por uma sociedade justa. À luta pelo Socialismo.
Quantos brasileiros pobres foram salvos por médicos cubanos que andarilharam onde médicos nativos não querem andar?
Qual país, mais do que Cuba, acolheu os que lutavam contra o regime militar instalado  no país por 21 anos e precisavam de um chão seguro onde pisar?
Como esquecer seu apoio intenso ao MST e à CAMPANHA LULA LIVRE?
Mas comprar esta briga é ir além das manifestações diplomáticas do Presidente Lula. É preciso encontrar formas de fazer chegar a ajuda necessária aos companheiros cubanos. Porque sempre há formas.
A organização de COMITÊS DE AJUDA SOLIDÁRIA AO POVO CUBANO deve ser estimulada nos partidos políticos de esquerda, nas escolas e universidades, nos sindicatos, nos diretórios acadêmicos, nos movimentos sociais mais diversos. Além disso, há que se contar a história. Em todos os lugares onde mais de dois estiverem reunidos.
Para um(a) latino-americano(a), sair em defesa de Cuba é sair em defesa de si mesmo(a). Hoje é Cuba, e também a Venezuela, amanhã pode ser qualquer país cuja orientação política contrarie Washington.  E haverá eleições por aqui em 2026... Será uma guerra suja, muito suja. Os precedentes estão postos, disponíveis ao uso, segundo a lei do mais forte. Há perigo na esquina. Se Cuba estiver vencida, ficará mais fácil para nosso inimigo porque estará a Latino-América toda sem o farol que iluminou a vida daquelas e daqueles que nela lutaram para mudar as coisas. Ficará um escuro tão denso que vai impedir até a possibilidade de enxergar primaveras, mesmo se com os olhos da imaginação.
Por isso, camaradas, não chorem apenas por Cuba.
Chorem também por nós. 



                                                                                                            MARIA


"... esta nova Cuba, que avança para o futuro sem medo, disposta a trabalhar cada dia com mais afinco, a ser cada vez mais merecedora disso que hoje somos para toda a América: seu farol mais alto, sua esperança mais grandiosa, sua lição mais importante!"
ERNESTO GUEVARA, novembro/1961
Universidade de Havana