segunda-feira, 8 de setembro de 2025

CÁLICE

 

"Pai, afasta de mim esse Cálice, 
de vinho tinto de sangue"
Chico e Gil,1973




Não há tentativa de golpe no Brasil. Há um golpe em andamento. Desde 2016. Em etapas. Primeiro impediram Dilma, com o Supremo, com tudo. E um Congresso, o do tchau querida, que parecia "o mais canalha". Então começaram a atravessar "a ponte para o futuro", com Temer comandando a destruição dos direitos trabalhistas conquistados com suor e sangue ao longo do século XX e, de quebra, levaram junto a escola pública, com a destruição do ensino médio e o florescimento dos colégios cívico-militares. 
Depois prenderam  Lula, num processo comandado pela CIA, tendo a Lava Jato e o Supremo como "os instrumentos da hora". Para colocar na presidência da república alguém capaz de destruir o país, alimentando a chama ressurgida do fascismo social. E eleger um Congresso "ainda mais canalha". Além de corroer por dentro todas as instituições ditas democráticas.
A destruição foi tanta que as próprias escórias dominantes facilitaram, com o Supremo tirando o pé, a volta de Lula em 2022, mas ali-ali. Com a rédea curta de um Congresso ainda pior que "o mais canalha" anterior. E a besta-fera solta. Veio o dezembro incendiário, as estradas atravancadas pelos caminhões e os acampamentos nos quartéis.
E o 08 de janeiro. Que, para nossa "salvação", destruiu o relógio de D. João e a cadeira do Moraes. Maus modos que nem a burguesia cheirosa suportou. Estava "criado o clima" para acabar nos tribunais, mas não encerrou o golpe. São inúmeras as evidências. A maior de todas é a luta pela anistia dos participantes, dos organizadores e dos mentores do "já feito". Para que possam continuar fazendo. 
Anistiar golpistas significa abrir ainda mais as portas da política nacional para o capitalismo neoliberal e, em especial, para o imperialismo norte-americano.
Apesar de tudo isso, setembro de 2025 começou marcado por uma ofensiva bolsonarista que empurrou LULA III outra vez para as cordas. O que se viu, continuando agosto, foi o levante no Congresso ganhar força com Tarcísio à frente, as "redes" dominadas amplamente pela direita e Lula, lúcido, pedindo um socorro que não veio.
O 07 de Setembro "do grito pela soberania" mostrou apenas a fragilidade ou a omissão das direções partidárias de esquerda, dos sindicatos e dos movimentos populares Brasil a dentro. Parece que a maioria tinha algo mais importante a fazer do que lutar no chão da rua, onde deviam estar mas não estiveram. 
No final do dia, o resultado foi mais um fracasso da luta pela vida. Porque é da vida que se trata. Dos excluídos, precarizados, adoecidos, usados e abusados pelo projeto de poder hoje hegemônico.
Em São Paulo, cidade emblemática, enquanto os que "gritavam" por tais vidas não chegaram a dez mil, o fascismo levava à avenida mais de quarenta mil cabeças de gado cobertas por uma gigantesca bandeira do império do capital. E foi assim em todo o país, não há como negar.
Mais dia menos dia, condenado o inominável no Tribunal "Superior", o que vai acontecer? Os navios da IV Esquadra vão deixar o litoral da Venezuela e atracar no Paranoá? As brigadas comandadas por Silas Malafaia vão fechar os "antros de perdição comunistas"? O agropop vai acelerar a morte das florestas e dos pampas? A vida boa dos que têm vida boa vai continuar igual enquanto a vida difícil dos que têm vida difícil vai ficar cada vez mais difícil?
Pensando nisso, o que há mesmo para  ser comemorado neste setembro estrelado pela bandeira do opressor ?
Por favor, alguém responda...

                                                                                            MARIA

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

AO GRITO, CAMARADAS

 


" A nossa Pátria é o mundo, nossos compatriotas são os operários e os estrangeiros, para nós, são todos os capitalistas."   
Manifesto da Federação Operária, 1908




Lula tem crescido nas pesquisas de opinião divulgadas por aí. Por que será? Assim, de repente, depois de tantos meses em queda. Será que o povo está, finalmente, abrindo os olhos? Ou será que foi a valentia dele, frente aos ataques do império do norte? Ou tudo junto e misturado? As teses multiplicam-se...
Uma coisa é certa, no entanto. Pesquisas eleitorais não são garantias de futuro, são apenas probabilidades no presente. E, assim mesmo, por inúmeros fatores, bastante frágeis. Por isso, não cabe no momento uma euforia ingênua ou prepotente.
È bom lembrar  que a maior potência imperialista do mundo tem deixado nítido que pretende continuar e aprofundar, em nova fase, a guerra "híbrida" que faz ao Brasil desde o primeiro governo Lula, no alvorecer deste XXI. Ao longo do século XX, a tática tinha sido outra e a guerra se chamava "fria".
A fase atual começou em 2008, quando, com a justificativa de combater o narcotráfico nos "mares do sul" recriou sua IV frota que passou a circular em águas latino-americanas. O presidente deles era Bush, "o terror do terror". Na Venezuela estava Chaves e no Brasil estava Lula e o pré-sal recém descoberto. Momento tenso.
Depois veio Obama, "o nobel da paz", colocando a CIA a bancar a Operação Lava-Jato, a espionar a Dilma e incentivar o golpe de 2016. O objetivo era acabar com a resistência mínima dos governos liderados pelo PT aos avanços neoliberais começados com Collor e acentuados  por FHC. 
Agora veio Trump, o magnífico, que quer o chão das terras "raras" para, com ele, alimentar as plataformas digitais do capitalismo neoliberal. E não vai desistir assim tão fácil. Tem a seu lado as escórias dominantes entre nós, representadas  majoritariamente nos espaços parlamentares do país em todos os níveis -  nacional, estadual e municipal. E, com elas, pretende construir  2026. No grito. Este é o projeto golpista em curso e esta longe de terminar. A condenação da quadrilha Bolsonaro não será a batalha final.
Lula tem feito o embate sozinho. Por mais que chame e provoque. As organizações da esquerda política, as frentes populares, os movimentos sociais, as centrais e federações sindicais, têm ficado na "torcida", mas sem levantar nem ao menos para fazer "olas". Até quando?
O Rio Grande do Sul, o Brasil e o Mundo precisam que a luta social grite aos ventos e em massa. Por justiça social, por Gaza e pelo Congo, pelo direito ao tempo e à preguiça, pelo amor livre para todes, pela distribuição da riqueza, pela vida no Planeta Terra.
No dia 7 de Setembro ,  o Grito dos Excluídos pode ser a oportunidade para levantar a voz coletiva vinda do chão da rua, como um trovão das entranhas, ecoando por baixo, querendo explodir. Em defesa da soberania nacional e da nossa humanidade. De braços dados.
Mas pode ser também mais uma oportunidade perdida, se poucos forem os presentes. Como uma recente na Câmara de Vereadores da cidade do Rio Grande, que o povo não ocupou para impedir a aprovação de uma moção de apoio à anistia do inelegível. E nossas vereadoras e vereadores ficaram gritando sozinhos.


                                                                                           MARIA

terça-feira, 26 de agosto de 2025

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLORES

 


Vem, vamos embora,
que esperar não é saber.
Quem sabe faz a hora, 
não espera acontecer
            Geraldo Vandré



O Partido dos Trabalhadores está "sob nova direção", eleita em 6 de julho, com a participação de cerca de 25% de seus filiados no dia da votação. Só.
De um "novo" ou "nova" qualquer, o que se espera é, no mínimo, um passo adiante na caminhada. No caso em questão, o PT, imprescindível é que seja um passo à esquerda. Para garantir a luta. Para resgatar a esperança. Porque o tempo é de guerra. Mais uma guerra imperialista. Quem finge não ver ou acredita que é possível ir levando a vida no ritmo de sempre, olhando apenas para o próprio umbigo, não compreende o que está ocorrendo.
Guerra quente e guerra fria. Guerras híbridas.
Palestina, Venezuela, República do Congo, Cuba, Sudão, Irã, Ucrânia, são os cenários mais visíveis da guerra "quente". Da guerra "fria", o palco central é, hoje, o Brasil, mas todo o mundo pobre pode nela ser encontrado.
O PED, no entanto, não expressou uma intenção de mudança no espaço petista para melhor posicionar-se no campo de batalha.. As mesmas correntes de pensamento, já hegemônicas no Partido faz tempo, foram as vitoriosas outra vez. A tendência é que continue a política até aqui praticada. As decisões cada vez mais centralizadas, os diretórios cada vez mais "de informes", a formação política cada vez mais superficial, as ações diretas cada vez mais escassas, a democracia interna cada vez mais desrespeitada, as campanhas eleitorais cada vez mais dentro da lógica capitalista, a questão financeira cada vez mais envolvida em véus. E os resultados cada vez mais pífios, do ponto de vista da classe trabalhadora.
Um Partido que nasceu na esquerda, como instrumento da luta entre as classes, ao administrar o capitalismo foi se tornando um partido de centro, digno representante da política tradicional burguesa, acomodado ao fundo partidário, ao fundo eleitoral, às emendas parlamentares individuais. O interesse de alguns sobrepondo-se ao interesse coletivo.
Dura realidade. Mas ainda há quem queira transformá-la. E, como dizia Paulo Freire, o grande mestre do século XX, a realidade só é até que a gente faça alguma coisa.
Nosso objetivo não pode continuar sendo "melhorar" o capitalismo. Precisa ser mais ousado e ir além, em busca de um futuro socialista.
Urge um Manifesto que denuncie, intensa e profundamente, a contradição existente entre o capital e a vida. Para que se possa anunciar em 2026 um projeto LULA IV radicalmente democrático, propulsor  de mudanças estruturais, humanistas e anticapitalistas.
Urge também pernas na rua, bandeiras ao vento, vontades de fazer diferente, imagens de futuro, além de estudo e muito compromisso.
Qual a disposição do Partido dos Trabalhadores para liderar um processo assim?
No momento,  muito pouca. Ou, talvez, nenhuma.



                                                                                                    MARIA


segunda-feira, 18 de agosto de 2025

CINEMA DE CALÇADA

 



O texto que segue foi escrito no final de agosto de 2008. Celebrava a inauguração do Cine Dunas Cidade. Foi fruto de um  gostar profundo, só traduzido na íntegra pela palavra amigo. Mas foi também fruto da intenção objetiva de registrar o significado histórico dos "cinemas de calçada" na construção da sociabilidade urbana.
Hoje, com as portas já fechadas pelo tempo e as luzes apagadas pela pandemia, o Cine Dunas permanece na memória da cidade como o ponto de encontro  e resistência que sempre foi. Fazendo sua própria história, foi tecendo junto  parcela significativa da história do Rio Grande. 
Neste agosto de 25, veio parar no "mariabonita"  como testemunho de um tempo vivido.



                                                                    "O amor é simples. E as coisas simples, as devora o tempo", escreveu um poeta faz tempo. " Nem sempre", escreveu um outro.





                                                               CINEMA  DE CALÇADA


Rio Grande teve inaugurada, em 25 de agosto passado, uma nova sala de cinema - o Cine Dunas Cidade. Com isso, resgata-se entre nós a tradição cultural dos cinemas de calçada.
Do Cine Teatro Carlos Gomes que, no início da década de 60 do século XX, já estava com as cadeiras sem estofo, mas, nas lotadas "matinées" de domingo, ainda recebia a gurizada que lá ia namorar e ver filmes de "mocinho", alguns torcendo pelos índios. A máquina sempre falhava, acendendo as luzes de repente e deixando ver outros tantos "filmes" espalhados  pela sala. Foi nele, nessa mesma  época, que as estudantes do Curso Normal do Juvenal Miller, que faziam teatro, puderam assistir "Navalha na Carne", com Plínio Marcos. Depois, a professora justificou-se afirmando não saber que a peça era tão "forte".
Do Sete de Setembro, que era o cinema da segunda-feira. Requintado, estofado verde, filmes "cult". Nele, além do filme, imperdíveis eram as notícias do Canal 100 exibidas no início de cada sessão. Era nele que se viam as jogadas e os maravilhosos gols  feitos pelo Garrincha uma semana antes. Na saída, um docinho no "Sol de Ouro".
Do Glória, majestoso pela amplidão, que atraia e acolhia multidões. Para a sessão de domingo, era preciso chegar cedo ou não se encontraria desocupado nenhum dos seus dois mil lugares. Entrava-se, "guardava-se" um lugar e se ia passear em seus corredores-avenida. Via-se a turma da esquerda, a turma da Luís Loréa, a turma do fundão...Quem chegasse cedo, recebia também "O Peixeiro", um jornalzinho com folhas cor-de-rosa e versos de J.G. de Araújo Jorge.
Sabemos que as lembranças, como os cheiros, chegam vindas não se sabe de onde e que por elas o passado se faz presente. Mas o jovem Cine Dunas resgata mais do que os rastros deixados pela história. Resgata espaço de trabalho. Em sua equipe de profissionais encontram-se Cleber e Simão, que um dia atuaram no antigo Cine Glória. Hoje podem ensinar o que aprenderam, um elo foi estabelecido. O filme recomeça, iluminando o conhecimento construído na experiência.
Em tempos de "império da telinha", em que o medo ou o cansaço deixa os humanos incomunicáveis na dita era da comunicação, o cinema pode ser, além de entretenimento e cultura, um ponto de encontro. Por isso, é preciso dizer às crianças e aos jovens desta geração "telinha" que, de vez em quando, faz falta uma "telona". Para que se olhe grande, para que se olhe mais. Para que se olhe junto.
E, olhando junto com todas e todos que já foram conhecer o Cine Dunas Cidade, bom também é perceber que a ousadia não morreu. Ainda há quem ouse. Porque é de ousadia que se trata quando se fala em abrir cinemas neste alvorecer do XXI.
Cleyton e Janete ousaram ao abrir o Cine Dunas Cassino. Agora ousaram mais ao presentear também a cidade com a belíssima sala da Rua Andradas, de onde até se pode ver, das sacadas, os "fundos do Cine Sete".
É uma ousadia que merece o respeito e o prestígio de todas e todos que acreditam ser um Ponto de Encontro algo a ser respeitado e prestigiado.
Numa terra de muitos ventos trazendo e levando areias, que os braços dos rio-grandinos sejam fortes o bastante para reter estas Dunas no Cassino e na Cidade.


                                                                                                       MARIA

sexta-feira, 18 de julho de 2025

PARA ISSO FIZEMOS L

 



Brasileiras e brasileiros que viveram o século XX, para não dizer injustamente que só os jovens "não viveram" o pior e o melhor da nossa história, NUNCA tinham  ouvido um Presidente da República dizer em rede nacional, na tv ou pelo rádio, o que Lula disse ontem sobre os Estados Unidos da América do Norte. Ele denunciou, a todos os ventos, mais uma guerra do império do norte contra um país latino-americano, que é o que somos. Deixou nítidos os motivos e o pretexto do governo norte-americano para iniciá-la. Os motivos são o medo que sentem do fortalecimento dos BRICS, onde o B inicial quer dizer BRASIL, na sua jornada em busca do multilateralismo sócio - econômico mundial e da "independência" do nosso sistema  judiciário, tão diferente da subserviência dos tempos da lava jato, que ousa hoje enfrentar as "big techs", ferramenta indispensável para a permanência global  do projeto capitalista em sua fase neoliberal. Só pretexto é a defesa do inelegível, indiciado por tentativa de golpe de Estado. A ignomínia da extrema direita brasileira, bem representada pela "familícia", foi de valor inestimável para que a "águia" mostrasse as garras.
O Presidente do Brasil, como nunca d'antes, repudiou veementemente a "chantagem inaceitável", as ameaças, as informações falsas, a tentativa de intimidação do Supremo Tribunal Federal, o ataque à soberania nacional, sem meias palavras.
Além disso, mostrou sua indignação com os traidores da pátria, que vestem camisetas amarelas da seleção brasileira enquanto continuam batendo continência para a bandeira do país "de Trump". Todos contaminados pela ganância capitalista ou iludidos pelo "sonho" americano da prosperidade individual.
Como recado final, um aviso: "O Brasil é dos brasileiros" e o Congresso Nacional já aprovou a Lei da Reciprocidade. Vai ter luta!
Do ponto de vista histórico, foi uma noite memorável, inédita para todas e todos que até aqui fizeram e viveram a história do Brasil. Foi para vivê-la que fizemos o L
No entanto, é bom lembrar que na história até hoje vivida nunca ganhamos uma guerra contra eles. O que virá a seguir ainda não é história. Logo, não pode ser escrito. Ainda está por ser feito.
Mas talvez tenha começado. Afinal, Bolsonaro amanheceu de tornozeleira.
" O que a vida pede é coragem" diria a grande Dilma. De dizer não, completaria Guimarães Rosa.

                                                                                              MARIA 


" Um dia as veias abertas da América Latina serão transformadas nos caminhos da libertação."
EDUARDO GALEANO

segunda-feira, 14 de julho de 2025

O QUE QUER BOLSONARO ?

 

 
Bolsonaro se recusa a sair de cena, como diz a jornalista Denise Assis integrante da Comissão Estadual da Verdade/RJ em sua coluna no Brasil247 (23/06/25). Acontece que a "cena", composta pelas "redes", mais as mídias remanescentes do século XX, mais os partidos de direita, também não o manda embora, teimando em reproduzir e ampliar sua palpitagem cotidiana sobre a política brasileira e mundial por  considerá-lo ainda significativo indutor de votos para 2026, mesmo sabendo que seu nome não estará na urna. Qual o verdadeiro objetivo desta "encenação" toda? Da direita coletivamente e de Bolsonaro individualmente?

"Dê-me 50% por cento da Câmara e 50% do Senado que eu mudo o destino do Brasil" - Jair Bolsonaro
( postado na última semana de junho )

Ainda que sabendo de sua realidade jurídica, o inelegível segue em frente na luta pela permanência, "atrapalhando" a busca por uma democracia, mesmo apenas liberal. Continua golpeando, não só  planejando golpes. Desempenhando o papel que lhe foi destinado pelo poder econômico civil que impera no país e fala pelos microfones da rede globo e similares. Sendo assim, o que importa hoje é reconhecer e denunciar o golpismo civil que sobrevive na sociedade brasileira e não pode mais apelar aos quartéis como sempre fez porque Bolsonaro acabou com os quartéis. Expôs sem véus toda a degradação, covardia e mediocridade dos generais e almirantes do mar e do ar, das "forças" armadas em geral. Descortinado está que queriam, mas não conseguiram, quando tentaram escondidos atrás de uma massa de manés.
Assim, é com o golpismo civil, sem a fantasia de soldado, que as organizações de esquerda precisam se ocupar agora. Se quiserem uma outra política, capaz de transformar efetivamente a realidade, não apenas reconstruí-la nos moldes de antes. Ou até só manter o pouco que se tem em termos de políticas públicas distributivas.
O foco precisa ser o Congresso Nacional. A escória aqui dominante há 500 anos quer em 2026 50% de Senadores e Deputados Federais de extrema direita. Mantém Bolsonaro "em cena" como besta-fera-propaganda para alcançar tal objetivo. Tendo em vista o Parlamento que já temos, parece mera manutenção. Mas não é. É um percentual que não permitirá mais negociação alguma, podendo, inclusive, aprovar uma anistia ampla a todos os golpistas. Sem obstáculos, poderá também garantir a continuidade da ordem economicamente opressora de forma contundente por um longo tempo à frente. Mas acentuada, acelerando a precarização da vida.
No interior do PT,  confirmada em 6 de julho, tem sido vitoriosa a tese que defende a não-polarização política, a moderação institucional, a conciliação com o inimigo de classe, a vastidão sem profundidade do aliancismo eleitoral. Tese esta abraçada com afinco nestes dois anos e meio pelo governo LULA III. Sem que, no entanto, tenha conseguido sair do sítio.
Contudo, inesperadamente, parece que o vento está mudando, forçado pela conjuntura. A derrota acachapante sofrida no Congresso Nacional com o decreto do IOF acendeu a luz vermelha. Literalmente.
Nas "redes", viralizou o "nós contra eles". Nas ruas, gente chegando aos poucos. O MTST ocupando a agência central de um grande banco. Atos contra a jornada 6x1 começando a acontecer. Em São Paulo, milhares ocupando a avenida para protestar. A votação no Plebiscito Popular ganhando fôlego em muitos espaços. E até o nosso Presidente, desfilando em carro aberto, levantando bem alto um cartaz que clamava por justiça tributária. Puxando a multidão.
A tão temida, contida, censurada, polarização começando afinal a acontecer.
Vai vingar? Ou logo será guardada na caixinha da memória outra vez?
Será aproveitada para tentar interromper o golpe civil em curso?
Ou será desperdiçada, como em 2013, quando, tontos, deixamos o capital se apropriar daquela inflamada corrente de indignação?
Compreenderá o novo presidente do PT que, embora não querendo,  será preciso polarizar? Talvez a carta vinda do Império o ajude a encontrar o caminho da luta necessária.
Quanto a Bolsonaro, o que ele quer é simplesmente a impunidade. Quer indulto pelos crimes cometidos como forma de  pagamento à continência  que bate à bandeira dos Estados Unidos.
Vai conseguir?


                                                                                   MARIA



domingo, 29 de junho de 2025

SENDO ASSIM

 

"Ser um fator de subversão da ordem estabelecida 
ou uma peça na engrenagem política tradicional?"
Pergunta escrita no muro



O PT é hoje constituído por mais de dois milhões de filiados em torno de um objetivo comum - a transformação da realidade social. Pelo menos em tese. Somos muitos e somos múltiplos. Tantos e tão múltiplos que, na prática, está ficando cada vez menos nítida a consistência do dito objetivo comum.
Forjado nos embates contra a opressão política e a exploração econômica no final da década de 1970, o Partido cresceu e se fortaleceu no imaginário do povo brasileiro como um instrumento de luta por justiça social e soberania nacional.
Na atualidade, grande parte da sociedade já não acredita nisso. Muito por conta da guerra suja travada contra ele pelas camadas dominantes social e economicamente. Mas, inegavelmente, muito também por conta do seu afastamento dos espaços de luta comunitária e popular. Ocupado com a institucionalidade, desaprendeu a linguagem da rua. Fragilizou-se como nunca porque perdeu sua histórica capacidade de mobilização e organização das massas. Pior, foi deixando de querer mobilizar e organizar. E era essa a sua força, nascida da coerência entre o dito e o feito.
Administrando o capitalismo foi degradando seu caráter de classe. Apartado do povo, aprendeu a silenciar, escondendo, os motivos e os significados das propostas que defende e incrementa.
Talvez envergonhado por ter cedido ao "espirito do tempo", saiu da parada de ônibus, da esquina, da praça pública. Recolheu-se ao espaço das telinhas e das "redes". Enquanto isso, no Senado, por exemplo,  vota unanimemente pela criação de um dia para festejar a "amizade" entre Brasil e Israel. E nenhum Diretório Municipal ou Estadual, elaborou, sequer, uma nota de repúdio a tamanho descalabro humanitário. Por que será? A militância petista tem o direito de saber. 
Mesmo assim, causa espanto a incompatibilidade entre as evidentes iniciativas do governo Lula III, do qual faz parte, para conter o horror social desencadeado com o golpe de 2016, acentuado com o governo da extrema direita fardada de bolsonarismo, e as pesquisas de opinião divulgadas frequentemente sobre ele. Setenta por cento de notas baixas ou regulares é bem difícil de absorver racionalmente. Ainda que as expectativas populares sejam maiores, que pontos estruturais significativos não tenham sido tocados e a política econômica neoliberal permaneça intacta. Não é simples nem fácil chegar a compreensão desta realidade, porque múltiplos são os fatores que a determinam e condicionam a continuidade da hegemonia do extremismo de direita na sociedade.
Primeiramente, por tratar-se de um fenômeno sociológico global, não apenas brasileiro ou latino- americano. E isso todos e todas sabem que é muito determinante. Até serve, as vezes, para "justificar" certas submissões.
Em segundo lugar, porque este comportamento político não começou ontem, nem em 2016. Nasceu nas salas acarpetadas dos capitalistas, assessorados por competentes "intelectuais orgânicos", para solucionar a crise terminal em que se encontra o modo de produção mais devastador de todos os já criados pela humanidade. Para que não termine, permaneça até que o planeta não mais consiga sustentar a vida humana. Desde a década de 1990 espalhou-se sorrateiramente, não só para barrar novos avanços das classes trabalhadoras como para destruir todas as conquistas obtidas pela luta ao longo do século XX. Em busca do lucro máximo.
O primeiro passo dos "donos" do mundo em direção a tal objetivo foi quebrar qualquer resistência ao seu novo/velho projeto de dominação. A qualquer preço. Pela força bruta, pela colonização das mentes, pela aceleração da vida cotidiana, pelo apagamento da memória histórica, pela louvação da "persona" em detrimento da louvação da "tribo". Pela ilusão de ótica inerente à tecnologia digital, quando utilizada acrítica e irrefletidamente. Passo até aqui dado com sucesso. A jaula parece mesmo de aço.
As guerras várias, o genocídio do povo palestino e de inúmeros povos africanos, a exasperação das desigualdades sociais, a má distribuição da terra no campo e na cidade, as catástrofes climáticas recorrentes, a inoperância de governos ditos progressistas para reverter tal conjuntura e a consequente demonização da política, testemunham esta realidade. De novo, verdadeiramente,, só a tecnologia - fascinante, encantadora, viciante, quase mágica. A lógica algorítmica e a crença religiosa promovendo um avanço gigante da desinformação e do engano. Frente a tudo isso, a questão que grita no peito de muitas e muitos é, sem dúvida, "o que fazer?", como há tanto tempo já se perguntava o grande Lenim.
No momento, o PT está vivenciando o processo eleitoral interno que renova suas instâncias de direção em nível nacional, estadual e municipal. Processo este que perde qualquer sentido se não tiver por eixo uma outra questão inseparável da primeira - por onde ir? No caso de uma organização política que ainda se intitula ferramenta de luta social, o caminho escolhido é o que vai dizer se ainda sabemos o que deve ser feito. E, se não sabendo, estamos dispostos a aprender.
O discurso que hoje fala mais alto no interior do partido defende não balançar o barco mais do que o minimamente necessário para ganhar eleições, sejam externas ou internas. Aquele mínimo que garante alguns benefícios ao precariado e a continuidade dos privilégios aos já historicamente privilegiados. Mínimo que não se traduz em qualquer prática transformadora.
Qual é a meta deste rumo, afinal? Tendo em vista que não é de hoje a estratégia. Data, por alto, lá de 2003 quando chegamos a presidência da republica. E nos levou a 2016, quando não ia ter golpe, mas teve. E a 2018, quando íamos voltar à presidência da nação, mas não voltamos. E a 2023, quando seria iniciado um governo de "união e reconstrução", mas o neoliberalismo continuou governando via congresso nacional. E a 2025, quando o balanço moderado do barco nos levaria a um porto seguro, mas não levou.
Há que aproveitar o PED ´para refletir sobre essa trajetória, identificando suas contradições. O reconhecimento dos equívocos que impregnam a estrutura partidária, os governos petistas e nossos mandatos parlamentares exige uma firmeza de propósito que, coletivamente, não temos neste instante. Mas podemos perseguir. Porque seguir como estamos, com uma predominância explícita do individualismo e do personalismo exacerbado,  é o sinal maior de que, mesmo entre nós, o sistema capitalista está vencendo.
Há quem pense que uma aceitação realista das regras políticas do mundo capitalista seja o único caminho possível. Há quem pense que não. É disso que precisa tratar o debate a ser feito. Tudo o mais será consequência. 
Sendo assim, sejam quais forem os encaminhamentos acordados, precisam estar referenciados no mais básico princípio petista - a construção coletiva da inserção partidária na luta entre as classes.


                                                                                      MARIA