segunda-feira, 5 de outubro de 2026

È P O S S Í V E L



" Esta é uma semeadura, mas é preciso insistir. Tem que ter mais gente semeando, mais gente cultivando para depois. O terreno é inóspito, é preciso mexer mais fundo. E aperfeiçoar a semente e o ato de semear. E, até mesmo, o gesto de colher os frutos."
OLÍVIO DUTRA, um dia governador do Rio Grande 



Em 4 de outubro de 1998, o Brasil reelegeu Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para a presidência da República, sem precisar de segundo turno. Ele tinha feito 53,06% dos votos válidos e iria consolidar no país  o projeto neoliberal de mundo - na época, considerado uma "novidade", embora não  fosse, e chamado de "modernização" do Estado, embora também não se tratasse disso. O vice era Marco Maciel (PFL), um homem vindo dos porões palacianos do regime militar.
Em segundo lugar, ficou Luiz Inácio, com 31% dos votos válidos. Ele tinha 52 anos. E a Rede Globo já o considerava seu inimigo nº 2. Seu vice, Leonel Brizola, era ainda o inimigo nº 1 da autoproclamada "vênus platinada". A chapa Lula/Brizola ganhou apenas em três Estados da Federação - Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Ceará.
No RS, a eleição não foi resolvida no primeiro turno. Antonio Britto (PMDB), candidato à reeleição, fez 50,78% dos votos válidos e Olívio Dutra (do PT) fez 49,22 % desses mesmos votos. A luta por aqui ia continuar. E diziam os "velhos de guerra" que, tradicionalmente, o segundo turno era vencido por quem vencia o primeiro.
A RBS, máscara da Rede Globo nestas plagas, cotidianamente espalhava mentiras pelo ar, era o whatsapp do momento. A gente, não tendo o microfone, desmentia no gogó, também cotidianamente. RBS MENTE, um adesivo genial, que resumia nossas falas com precisão cirúrgica, era colocado em portas e janelas exaustivamente, nas mochilas e nas costas das jaquetas, nas paradas de ônibus  e nas bicicletas. A Frente Popular, formada no primeiro turno para agregar os semelhantes, (PT, PCdoB, PSB, PPS, PCB, PSTU), foi ampliada no segundo com a chegada do PDT. Dela participaram ativamente o MST, a CUT, inúmeros SINDICATOS e MOVIMENTOS SOCIAIS POPULARES os mais diversos. Por ela foram organizadas caravanas que espalharam-se pelo solo rio-grandense defendendo nosso então "jeito de governar", hoje esquecido. Mas, principalmente, bateu-se de porta em porta para conversar com o povo trabalhador antes de entregar qualquer papel. Para isso, faltou-se ao serviço, dormiu-se bem menos, levou-se a bandeira nas costas e a estrela no peito para o mercado e o boteco, perdeu-se a carona e o ônibus. CAMINHANDO CONTRA O VENTO, NO SOL DE QUASE DEZMBRO, porque tínhamos somente 20 dias. e não seria em nossas horas vagas de pintar as unhas que iríamos virar  aquele jogo.Nem com cabos eleitorais alugados, muito menos com oportunistas de plantão a espera de um cargo qualquer. Tinha que ser com a guerreira ou o guerreiro que morava em cada um(a) de nós. E fomos. As avaliações, os desentendimentos, as cobranças internas, deixamos para depois. E conseguimos.
No dia 25 de outubro daquele ano elegemos Olivio Dutra e Miguel Rosseto ao governo estadual.
E, no 1º de janeirao de 1999, com a praça mais lotada que o palácio, enquanto rolava a festa, uma bandeira de Cuba tremulava faceira numa sacada lateral do Piratini.
Hoje, o prazo é o mesmo, 20 dias. Mas o desafio é muito maior. Além da abrangência e complexidade  territorial, trata-se agora de impedir a volta do neofascismo ultraliberal ao Palácio do Planalto, único espaço institucional federal ainda não dominado pela extrema direita depois do pleito de ontem, até mesmo no Supremo Tribunal Federal, onde os inrustidos vão começar a tirar a fantasia.
No entanto, continua possível vencer a batalha. Ainda que muito mais difícil. 
Pela brutalidade do inimigo, pelo interesse do império do norte e pela fragilidade do nosso compromisso com a luta entre as classes, enquanto organização política de esquerda.
Contudo, podemos vencer se, mesmo frágeis , conseguirmos explicar aos eleitores a grande contradição conjuntural do momento presente - só escolhendo a democracia teremos chance de semear um futuro. A extrema direita vai nos acorrentar ao presente sabe-se lá por quanto tempo.
À luta, então, camaradas.

                                                                               MARIA