segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um problema chamado Paulo Freire

A Região Nordeste do Brasil foi o cenário geográfico e histórico em que nasceu Paulo Freire, o maior mestre do século XX, no dia 19 de setembro de 1921. Lá, ele começou a aprender e a ensinar, mas foi o mundo a grande sala de aula em que viveu. No mundo, espalhou as sementes das suas pedagogias - do Oprimido, da Esperança, da Autonomia. E, com ele, compartilhou os frutos dessa semeadura. Falou aos quatro ventos, mas escutou especialmente o vento sul, carregado das vozes dos deserdados da Terra. Tomava partido, sempre. Partido de classe. Via a educação como instrumento de libertação social, ou não.Reconhecia os limites e vislumbrava as possibilidades da prática político-pedagógica numa sociedade dividida em classes. E tinha a firme convicção de que "a realidade só é até que... a gente interfira nela".
Entretanto, enquanto era acolhido e respeitado em diferentes países e continentes, na "pátria-amada", durante os longos anos de chumbo do regime militar, foi criticado, perseguido, ignorado, até odiado, por aqueles que não o compreendiam e por alguns que o compreendiam bem demais. Mesmo assim, aqui também logrou saltar o muro da escola e chegar à sala dos professores, levando consigo as merendeiras, as serventes, as secretárias, os estudantes, a realidade social e o desejo de transformá-la. Orientou os fazeres pedagógicos de muitos, atraindo-os por sua coerência existencial. Fazia o que dizia, coisa rara na prática educativa de todos os tempos. 
Ensinava a ensinar desmascarando o mito da neutralidade educacional, a intencionalidade de classe da educação "bancária", a farsa dos discursos acadêmicos que se eternizavam só discursos, as contradições entre as linhas e as entrelinhas dos currículos escolares tradicionais, incluindo aí os currículos dos cursos universitários de formação de professores. Era difícil segui-lo. "Exigia" muito. Exigia rupturas, ousadias, compromissos, releituras e, sobretudo, posição. Compreendia as contradições humanas, mas considerava inaceitáveis entre educadores a omissão e a demagogia.
Era um irredutível, na medida em que não admitia a redução da educação à mera transmissão de informações, ao treinamento de competências mercadológicas, à ilustração intelectual. Sua proposta político-pedagógica era de rebelião, de insurgência, de desacato. Propunha a construção democrática do currículo inédito, a partir da realidade de cada comunidade escolar e pela própria comunidade escolar. Sabia, e propagava, que a educação, não sendo tudo nem o todo, pode ser parte significativa na luta contra o capitalismo predador dos corpos e das consciências. Era um anticapitalista publicamente assumido e militantemente organizado. 
Nos tempos que correm, muita louvação, muitas homenagens, muito consenso acadêmico, mas também muita apropriação indébita da sua palavra. Na realidade, está perdendo a guerra. As políticas educacionais predominantes no Brasil hoje, embora algumas fantasiadas de freirianas, são distorções ofensivas ao seu pensamento. Elas continuam servindo ao capital. Continuam oferecendo o espaço escolar público para a adequação da juventude às exigências do deus-mercado, inquestionável porque deus. A miserabilidade salarial dos trabalhadores em educação e a degradação de suas condições de trabalho fazem parte da estratégia. Professores e funcionários de escola melhor remunerados, com tempo disponível para o pensamento e a  reflexão, talvez queiram reler Paulo Freire. Quem sabe segui-lo... 
Seria um problema.
Maria


 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Os ricos vão pagar"

Depois de uma semana de ocupação da Câmara Municipal de Porto Alegre e de uma audiência de conciliação (mediada pela Vara de Fazenda Pública), os jovens militantes do Movimento Bloco de Luta pelo Transporte Público deixaram a Casa do Povo. Saíram satisfeitos. Duas de suas principais reivindicações serão atendidas - o passe livre para estudantes e desempregados da cidade e a abertura da contabilidade das empresas de ônibus do município. Conscientes do custo operacional do direito conquistado (alguém tem de pagar), gritavam: ¨"Os ricos vão pagar!" "Os ricos vão pagar!" Tomara. Até aqui não tem sido assim.
Sabe-se que na história das sociedades humanas ditas civilizadas dificilmente se vivenciou equidade social. A riqueza material não costuma ser justamente dividida. Sabe-se também que a cobrança de impostos ao longo dos séculos tem contribuído mais para a continuidade desta perversão do que para sua correção.
A palavra tributo, do latim tributum, significava originalmente "dividir entre as tribos". Adaptada para o campo financeiro, passou a significar "divisão (entre os "sócios") dos custos da vida em sociedade". Na prática, extorsão dos  fracos para conforto dos fortes. 
Nas complexas sociedades contemporâneas, tributos são "fatias da riqueza social entregues ao Estado-Administrador para que este as retorne em serviços públicos". Embora legalmente instituídos através dos Parlamentos e sancionados pelos representantes do  Poder Executivo em todas as suas instâncias, a fatia tributada aos "de cima" (aos vulgarmente chamados ricos), como banqueiros especificamente ou grandes empresas transnacionais de modo geral, tem sido proporcionalmente muito menor que a fatia exigida dos "de baixo" (os vulgarmente chamados pobres), como os não-proprietários especificamente ou todos os escravos do salário de maneira geral. Além disso, esse dinheiro fatiado,majoritariamente dos pobres que compulsoriamente o entregam à Administração Pública, é devolvido aos ricos nas obras públicas falcatruadas, nas remunerações e privilégios obscenos dos cargos políticos, no pagamento dos serviços públicos terceirizados, nos escuros corredores da corrupção.
Por conta disso, entre as muitas reformas necessárias e urgentes neste Brasil do século XXI, a Reforma Tributária (muito pouco lembrada pela grande imprensa) salienta-se como aquela que pode ser, ao lado da Reforma Agrária, o início da caminhada rumo à democracia econômica.
Entretanto, que não haja ilusões. Uma Reforma Tributária que desagrade ao poder econômico e deixe satisfeita a classe trabalhadora, só acontecerá com pressão dos Movimentos Sociais organizados sobre os Parlamentos e os Executivos, em âmbito federal, estadual e municipal. Por isso, as vozes do Bloco de Luta de Porto Alegre precisam ecoar por todo o país:
                                 Senhores Parlamentares e Governantes, façam os ricos pagarem!
                                 Não é favor. É justiça.



                                                                               Maria 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Uma prefeitura "piscando"

Na noite de 20 de junho próximo passado, a Prefeitura da cidade do Rio Grande iluminou-se, "piscou" para a manifestação popular e abriu suas portas para recebê-la. 
O Prefeito não perguntou quem eram os que chegavam, recebeu-os democraticamente como era seu dever. Não adiou o encontro, não teve medo do povo. Talvez por reconhecer-se nele. Talvez por nele reconhecer a parceria legítima para a realização da difícil tarefa de colocar o espaço da cidade a serviço das maiorias. Talvez por querer seu respaldo para aprovar na Câmara de Vereadores projetos de interesse da classe trabalhadora. Talvez por ver no diálogo dos governantes com os movimentos sociais organizados e com o povo na rua a melhor prática política para lutar contra o neoliberalismo predador, excludente e alienante. 
Por conta disso, o velho paço municipal, tantas vezes mantido fechado e no escuro ao longo de sua história, naquela noite foi do público. Mais do que por lâmpadas elétricas, iluminou-se de democracia. Tensa e intensa, temperada pela energia juvenil dos que lá estavam pela primeira vez. Não havia barreiras que separassem o Prédio do Povo, contudo este não o depredou. Apenas o vestiu com seus anseios. Talvez por senti-lo mais seu do que dos governantes. Talvez por percebê-lo belo. Talvez por não considerar necessário.
Lamentavelmente, alguns dias depois, esta experiência de democracia direta não se repetiu na frente do Parlamento Rio-Grandino, que encerrou antecipadamente suas atividades para evitar qualquer encontro com a manifestação popular. Talvez por cinismo - o que importa a voz da rua? Talvez por medo - do que nos acusará a voz da rua? Talvez por covardia. Do lado de fora, alguns vereadores ficaram. Talvez por considerarem importante a voz da rua. Talvez por serem mais espertos. Será bom saber quem são.
Das lições que ficam destas "jornadas de junho" na cidade do Rio Grande, para todos os que aqui nasceram ou um dia aqui se aquerenciaram, para todos os que delas de alguma forma participaram, tiveram notícia ou emitiram opinião, cumpre destacar a constatação de que o povo continua exigindo muito pouco e a compreensão de que só a radicalização da democracia participativa poderá impulsionar mais do que mudanças, reais transformações na sociedade. De quebra, talvez tenham impulsionado a bendita melhoria no transporte coletivo municipal há tanto tempo exigida por aqueles que o necessitam cotidianamente. 

Maria

Uma leitura para compreender:

As Lutas de classes na França (1848-1850), Karl Marx.



Um retorno ao velho Mestre, que com sua lucidez e atualidade ainda contribui  para a compreensão da realidade contemporânea. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O que querem os que estão na rua?

Nos últimos dias, esta é a pergunta corrente entre os que mandam, os que obedecem, os dirigentes, os dirigidos, os trabalhadores e os patrões, nesta terra e neste tempo. Múltiplas são as hipóteses levantadas, multiplicando indefinidamente a pergunta inicial.
Querem melhor transporte coletivo ou só passagens mais baratas? Talvez queiram o tempo que lhes foi roubado pela "imobilidade" urbana contemporânea. Sendo na maioria jovens, querem então o que não conhecem? Marcham sob chavões populistas, como "saúde-educação", ou pela partilha justa do espaço e da riqueza da cidade, só ela capaz de oferecer a todos mais saúde e melhor educação? Levantam-se contra a opressão das maiorias, aqui existente desde o século XVI, ou por questões pontuais do sistema capitalista? Servem à situação política ou às oposições, de esquerda ou de direita? São questões ainda sem respostas para os comentaristas de plantão, mas que não esgotam as perspectivas de análise deste "grito de alerta".
A causa mais forte da perplexidade reinante não  é o desconhecimento dos motivos - motivos não faltam, e de todos os matizes ideológicos. Podem ser até mesmo a simples "novidade" do encontro ou a possibilidade de "quebrar", ao abrigo de um coletivo. O que desconcerta o senso comum é um ponto claro e objetivo: como conseguiram? 
Como conseguiram, o que os "velhos" movimentos não conseguem mais? Não estavam transformados em "homo resignatus"? Como conseguiram, se a sociedade do espetáculo os vem preparando para viver sentados (ou ajoelhados)? Não estavam totalmente seduzidos pelo "fetiche das mercadorias"? Perguntam-se, então, os perplexos: nem futebol resolve mais? Em 1970, resolvia. A pátria de chuteiras (e de farda) não admitia protestos, só aplausos. Impunha "respeito". 
Acalmem-se, senhoras e senhores, é possível que atendida a reivindicação primária - o preço das passagens - os manifestantes voltem para casa. Todas as esferas políticas (dos Municípios à União) estão empenhadas como nunca na diminuição dos centavos possíveis dentro da ordem capitalista, a qual hoje todos servem, admitindo ou não. Por trás deles, os que nos mandam estão dispostos a este pequeno sacrifício em troca do silêncio das ruas. 
Por enquanto, senhoras e senhores, preocupem-se apenas com um detalhe: apesar de termos feito tudo o que fizemos e de não termos feito  tudo o que devíamos, alguns (jovens ou não) não perderam a capacidade de indignar-se. E uma corrente inflamada de indignação é energia que pode ser canalizada para um lado ou para o outro. Aqueles que não pensam senão na continuidade do já estabelecido podem ter dificuldades logo adiante. Mas os que desejam a ruptura com o sistema nublado do capital também. A história continua e os caminhos estão abertos. Saibamos identificá-los.
Maria

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"A mulher mais importante do século XX"

Segundo uma comentarista do noticiário matinal da Rede Globo de Televisão, "Margaret Thatcher foi a mulher mais importante do século XX". Importante para quem, ela não disse. Importar, verbo transitivo, exige um complemento. Diante do jornalismo "imparcial" da referida senhora, vale lembrar a quem foi útil (e daí importante) a "dama de ferro" inglesa, recentemente falecida. Às mulheres do mundo? Aos trabalhadores de algum continente? Ao povo pobre do seu país? Ao meio-ambiente?
Margaret Thatcher foi única e exclusivamente útil ao capital. Liderou o processo de mergulho da humanidade na lama neoliberalista contemporânea. Roubou de milhões de seres humanos direitos conquistados a ferro e fogo. Junto com Ronald Reagan dos EUA, mostrou às elites políticas do planeta, servidoras do capital, como é que se faz. Foi mestra, teve seguidores exemplares. Depois dela, e deles, a precarização das relações de trabalho, a "flexibilização" da economia global, a  despolitização da política (os governos pós-políticos), a aceleração da degradação ambiental. Tudo perpassado pela construção ideológica para a qual também contribuiu com sua ação política: de que o caminho é único, de que a melhor imagem é a que está na tela, de que Estado bom é Estado mínimo, de que o privado se sobrepõe ao público, de que "consumo" é sinônimo de cidadania. Não foi por pouco a comemoração de sua morte nos bairros pobres de Londres.
Para os que sabem que um outro mundo é necessário e urgente, e que torná-lo possível é hoje a luta cotidiana imposta pelos tempos, outras são as mulheres importantes do século XX. Rosa Luxemburg, Isadora Duncan, Pagu, Simone de Beauvoir, Frida Kalo, Mercedes Sosa, estão entre elas. E a mais importante, com certeza, não é uma individualidade em particular. É um sujeito histórico coletivo, constituído por todas que, anonimamente, têm participado dos combates anticapitalistas. Querendo que o mundo buscado e defendido por mulheres e homens como Margaret Thatcher seja apenas passado. 

No campo das letras à esquerda, um lançamento recente: Para salvar o planeta liberte-se do capitalismo. Hervé Kempf, Saberes Editora, 2012.




Numa linguagem envolvente, "o mais famoso jornalista-ambientalista francês", nos faz perceber claramente a urgência de encontrar, descobrir, abrir com foices, um caminho para sair do capitalismo. Descrevendo a realidade planetária contemporânea seu texto é impactante (como impactante é a extraordinária capa do livro) e profundamente pedagógico. É, além disso, perpassado de uma esperança enérgica, que não espera, começa. Sua tese é de que sem justiça social (só possível fora do capitalismo) cessam as possibilidades de salvação do planeta.
Maria


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Sementes de Luta...

A guerra contra Artigas


O século XIX iniciou na Europa já incendiado pelas guerras napoleônicas, que faziam tremer não só os velhos regimes monárquicos absolutistas como também a Inglaterra, rejuvenescida pelo florescer da "sua" revolução industrial. O que se tinha, de fato, era uma disputa por áreas de influência entre as duas grandes burguesias nacionais emergentes naquele momento. O vencedor levaria as batatas, no caso as decadentes famílias reais que só queriam conservar os anéis. Os dedos (do povo, é claro) entregavam de boa vontade. Os monarcas da Península Ibérica entre eles.
Disso, as consequências todos conhecem: as guerras por independência política na América Espanhola (a invasão da Espanha pelos "aliados" franceses foi o pretexto); a vinda da família real portuguesa para o Brasil (escoltada pela frota inglesa) e a primeira "transição conservadora" vista por aqui - do regime colonial para o imperial, mantendo-se a dinastia; a vitória da Inglaterra sobre a França e, sob seu domínio até 1914, o avanço inexorável do capital sobre o mundo inteiro.
Com a independência política, as elites "criollas" do sul da América do Sul queriam livrar apenas a si mesmas do jugo metropolitano e ampliar o próprio poder econômico, mantendo inalterada a submissão dos povos que aqui habitavam. Por isso, uniram-se ao reino de Portugal, Brasil e Algarves (depois império do Brasil) para impedir que fosse colocado em  prática, em pleno Pampa, um projeto societário direcionado para a emancipação das populações campesinas, desgarradas, sem ocupação fixa, despojadas de teto e de chão.
Na então chamada Banda Oriental do Rio da Prata, atual Uruguai, uma massa popular heterogênea, unificada em torno de um chefe que nela se fortalecia, não se contentou com a expulsão dos espanhóis e quis avançar rumo à revolução social. Teve como resposta uma guerra de extermínio. Foi atacada primeiro por Buenos Aires, depois pela elite de Montevidéu e, finalmente, pelo Brasil.
José Artigas, um estancieiro oriental, seguidor de Rousseau e da tradição revolucionária francesa, republicano e abolicionista, era o líder desses excluídos. Foi o primeiro a propor democracia participativa e reforma agrária em solo sul-americano. Não podia ser "tolerado" pelos representantes das classes dominantes. Derrotado pelo exército luso-brasileiro nos confrontos de 1816, iniciou um movimento guerrilheiro que durou 3 anos. Nessa resistência, morreu metade do povo pobre do interior Oriental. Em Taquarembó (1820), Artigas foi definitivamente vencido, exilando-se no Paraguai, onde viveu silenciosamente por mais de 30 anos, sem poder voltar à terra natal. A Banda Oriental foi anexada ao Brasil com o nome de Província Cisplatina (aquém do Prata). A Inglaterra ganhou mais súditos. A partilha das terras do Pampa foi brutalmente interrompida. Mas as sementes da luta pelo chão e pelo teto tinham sido lançadas... ao sul da América do Sul.
Maria


Para saber mais: A Fronteira, volume I. Tau Golin, L & PM Editores, 2002.




O rio-grandense Tau Golin analisa, no livro, a fronteira como espaço histórico de tensão e construção de identidades peculiares, contemplando substancialmente a formação das fronteiras no Pampa, enxergando-as como partes do complexo processo de conquista territorial empreendido aqui pelos Estados-Nação europeus, mas perpassadas pelas lutas por libertação dos povos oprimidos.


Replantando as sementes: Uruguai e Brasil no contexto contemporâneo da América do Sul.


Os povos sul americanos, no início deste XXI, vivem uma realidade histórica complexa e intensamente contraditória: diversos (nunca dantes tantos) países do continente elegeram, e mantém no poder, projetos governamentais de centro-esquerda (coligados com parcelas da direita "em nome da governabilidade"), frutos da luta dos movimentos sociais caracterizados por posições à esquerda. Mas o novo bloco de poder, desse modo constituído, tem conseguido apenas, com pequenos avanços sociais imediatistas, retardar a luta por transformações econômicas e políticas que apontem na direção do objetivo maior - a emancipação concreta, profana, histórica, das camadas populacionais excluídas do "bem-viver".
Para replantar as sementes da luta talvez seja necessário, antes de mais nada, combater o "novo conservadorismo das massas", favorecido justamente por sua inserção no mercado consumidor, pelo fortalecimento dos fanatismos religiosos da atualidade e pela devastação midiática das consciências, marca forte destes tempos. 

Raul Zibechi: é um escritor, jornalista e ativista político uruguaio que reflete sobre o tema, expressando teses interessantes em artigos, palestras e alguns livros (infelizmente ainda não editados no Brasil). Sua obra mais recente é Brasil Potencia..., na qual analisa as possibilidades que se abrem ao maior país da América do Sul em relação aos vizinhos, nos tempos vindouros. Dominação capitalista ou parceria regional?



Maria

sexta-feira, 29 de março de 2013

"Sou só pobre, negro e gay..."

A liberdade de ser sem sofrer discriminação por sê-lo é um direito humano?

No Brasil dos anos 60 e 70 do século XX, na linguagem popular da juventude, surgiu como gíria a palavra CARETA. Seu significado, restringido ao senso comum, estabelecia apenas a diferença entre os que fumavam e os que não fumavam maconha. No entanto, como tantas outras palavras, trazia nas entre-letras um sentido mais amplo e representava a distinção entre conservadores e inovadores sociais. Neste caso, fumar ou não fumar não é o que caracterizava o sujeito. CARETA era chamado, então, aquele ou aquela que afirmava: "mulher gosta de apanhar", que não namorava negros, que defendia a virgindade da noiva (não a do noivo) até o "altar", que reprovava o homossexualismo ou o enxergava como doença (uma boa surra curava), que gostava do verde - oliva dos quarteis, espalhando que "comunista come criancinhas", que ensinava o filho a ser macho, impedindo-o de chorar. Um CARETA não apresentava nenhum sinal de "mal - estar" na cultura em que vivia e ardorosamente a defendia. Fumasse ou não fumasse maconha.
Combatia-se a caretice, lutou-se muito pela sua extinção. Porque era predatória, porque os únicos direitos humanos que o CARETA defendia eram os próprios. O ser do outro, não sendo espelho, jamais era respeitado. Era um combate contra o pré-conceito, contra o juízo antecipado, contra a insinuação de culpa, contra o julgamento sem fundamentação racional, contra a permanência da "santa" inquisição no seio da sociedade laica. Expressou, inclusive, uma das faces da luta maior que, até aqui, tem movido a história da humanidade - a luta entre as classes.
Em 50 anos, avanços significativos foram obtidos neste embate. Mas a necessidade de continuá-lo está posta. O amparo legal, para que seja garantido a todos o direito de exercer o que há de humano em todos, caminha a passos lentos, mas caminha. Por isso, barrar, impedir, frustrar, qualquer retrocesso nesta caminhada é compromisso de todos os livres e de todos os ainda escravos, que bradam por libertação.
"Sou só pobre, negro e gay..." foi a frase dita, em frente às câmeras de TV, pelo cidadão detido dia 26 de março próximo passado no Congresso Nacional, a pedido do Presidente da Comissão dos Direitos Humanos daquela Casa. Dizia o deputado que iria processá-lo por calúnia e difamação (ele o chamara de racista, mas cadê as provas?). Chegava-se, assim, a um momento de ápice da ordem estabelecida nestas terras há 500 anos. A ordem da força, da covardia e da manipulação das consciências. Tolerância não é o que se quer (a tolerância é hierárquica). Respeito é o que se exige.
Intensificar a mobilização para expulsar Marco Feliciano de um espaço de luta construído com o suor e o sangue de milhares de militantes dos movimentos sociais é ponto de honra. Bandeiras ao vento, já! Vigílias permanentes, já! Greve geral, já! Luto extra-oficial até que... Mas não basta. Há que buscar, denunciar e inquirir em praça pública quem, por ação, omissão ou rabo preso, permitiu que ele chegasse lá e tem garantido sua permanência. Quais os objetivos velados desta escolha? O que esperam de uma comissão de direitos humanos presidida por ele? Qual o significado deste bode - CARETA na sala? "Meus inimigos" estão no poder? A caretice continua reinando?
Marchemos contra ela. Marchemos por nós... os só humanos.
Maria


Livro sugerido: 

A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro, Georges Bourdoukan. Editora Casa Amarela.




Nesta obra, o autor que é jornalista, mas também escreve ficção talentosamente, entremeou história e criação literária para desvelar cruamente o desrespeito aos direitos humanos no Brasil Colonial, contemplando também as lutas pioneiras pelo "direito de ser sem ser discriminado por sê-lo..." Mesmo tratando de tema tão pesado, a prosa é leve e ágil, capaz de seduzir desde o início.

sábado, 23 de março de 2013

Paulo, onde estás que não te escuto?



No início da década de 1970, o Brasil vivia o auge da ditadura civil-militar, instaurada no país em 1964, e celebrava-se o "milagre econômico", que iria nos levar pelos caminhos do desenvolvimento social. No município do Rio Grande, RS, inaugurava-se o "super-porto", inclusive com a presença do general-ditador da hora. Engalanava-se a cidade para tão ilustre visita. Cada setor da sociedade recebeu o encargo de contribuir a seu modo para o brilho do momento ímpar.
Quando se soube que o general-ditador ia chegar em carreata vinda de Pelotas e passar sob o novíssimo trevo rodoviário, indo direto às igualmente novíssimas instalações portuárias, alvoroço. Seria necessária também uma homenagem lá do alto do viaduto. Quem sabe, criancinhas, bandeirinhas, tudo muito verde e amarelinho. Daquela singela parte da festa, foram encarregadas as escolas públicas estaduais e municipais, ainda "primárias", do Senandes, do Bolaxa e do Balneário Cassino, comunidades do entorno da "passagem". Para que bem se preparassem, com o respeito devido a tão ilustre visitador, recebeu cada uma delas um comunicado da polícia federal que orientava as professoras sobre os comportamentos adequados às crianças (e a elas) em evento de tal magnitude. Bastava que abanassem com as bandeirinhas, uma vez que o vento, a altura e o carro fechado do general-ditador impediriam a percepção de qualquer som por parte dele.
Uma professora, violentada pelo arbítrio, combinou com sua turma que eles não se calariam. Iriam gritar muito alto: Abaixo o ditador! Abaixo o ditador!... Ao chegar o dia D, muito vento, muito cinza, muitos gritos no vento e no cinza: Abaixo o ditador!  Abaixo o ditador! Que não ouviu, muito menos viu a "homenagem" vinda de cima. A velocidade dos carros da comitiva não permitiu. Mas a professora lá, incansável, incentivando o grito: "Paulo, onde estás que não te escuto? Marisinha, grita forte!". Ao ser alertada sobre a inutilidade dos gritos, subitamente compreendeu - não importava o alcance das vozes naquele momento, ela estava era ensinando a gritar. Por isso, continuou: "Paulo, onde estás que não te escuto?..." Alguns aprenderam.

EM TEMPO:  a professora primária em questão, por sua insignificância na ordem daqueles fatos, foi apenas advertida por maus modos. 
Maria


Outras crônicas daqueles tempos: O Ato e o Fato, Carlos Heitor Cony. Objetiva, 2006.


A voz de um homem que sem ser de esquerda, mas sendo um democrata, transformou-se na voz de muitos, no brado diário contra o regime militar ditatorial através das folhas de um jornal, até dezembro de 1964, quando então não foi mais possível. Reunidas em livro, foram editadas no final daquele ano e recentemente reeditadas. Mais do que simples crônicas, são hoje registros de um passado ainda próximo. Vale a leitura.

quarta-feira, 20 de março de 2013

A história que se sabe

A História, enquanto disciplina escolar autônoma, surgiu na Europa, no século XIX, como parte da disputa entre o poder religioso (defensor da volta do absolutismo monárquico) e o poder laico (constituído pela burguesia emergente). Tinha por objetivo forjar as nacionalidades necessárias à reorganização dos Estados, após a era bonapartista. Urgia a formação de patriotas para as "pátrias" já formadas pelas guerras. Nenhum lugar mais adequado para isso do que a escola. Então, sejam multiplicados os bancos escolares e criadas "aulas de patriotismo". Era o melhor modo de garantir o advento de defensores dos interesses das classes dominantes como se fossem interesses de todos, da "pátria". 
No Brasil, em meados daqueles século, surgia nosso primeiro historiador - não um cronista ou um viajante, mas um sistematizador de fatos, um criador da memória nacional - Francisco Adolfo Varnhagen. Éramos um país novo, criado a partir dos interesses dos latifundiários escravagistas, em acordo com a própria família real portuguesa. No entanto, na visão das elites, não éramos uma nação. Por isso, necessário criá-la no "coração" do povo ou corríamos o risco de estilhaçarmo-nos em inúmeros "pedacinhos", a exemplo do que estava ocorrendo na América Espanhola (o que não seria bom para os "negócios"). 
Ora, uma nação não se cria magicamente a partir do hoje. Só um passado historicamente ordenado é capaz de constituí-la. Varnhagen a constituiu num compêndio. Um livro didático, diríamos hoje. Começava o tal compêndio relatando a invasão holandesa ao Nordeste brasileiro, onde, supostamente, índios, brancos e negros estiveram unidos na luta contra o inimigo da "pátria". Qual pátria, em 1654? Chegava ao requinte: os índios bons ajudavam os portugueses, os maus ajudavam os holandeses. E por aí seguiu adiante...
Ao longo do século XX a versão da história nacional conhecida pelo povo brasileiro era aquela narrada nos compêndios escolares - o Livro de História mais lido por parcela significativa da sociedade brasileira. Contemplava a memória branca da elite, idealizava o índio (já quase exterminado) e afirmava a "docilidade" do negro. Uma história morta, "ciência do passado", detentora de verdades definitivas, enaltecedora de comandantes e princesas, sem nenhuma ligação com a vida vivida pelos excluídos do poder econômico. Foi esta a história ensinada. Foi esta a história aprendida.
Entretanto, temos uma razoável produção historiográfica com outras versões desse processo de construção social. Está restrita quase integralmente aos círculos acadêmicos. Difundi-la, é tarefa cidadã de todos que a conhecem. Só pela desconstrução de mitos estaremos restituindo o protagonismo a quem de direito. E a história poderá ter alguma utilidade para o que realmente importa: a luta pela emancipação destes excluídos.
Maria


Para saber mais:

O Mito do Herói Nacional, Paulo Miceli. Editora Contexto, 1989. (Disponível em bons sebos virtuais). 





O Brasil, o Povo e o Poder, Miguel Arraes. Editora Língua Geral, 2008.




A Ditadura Militar no Brasil: Repressão e Pretensão de Legitimidade, Maria José de Rezende. Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2003.





terça-feira, 12 de março de 2013

O 13 de Março de 1964 e o palavrão contemporâneo

Sabemos que entre as marcas de um tempo histórico está a linguagem que lhe é própria. A cada tempo, uma linguagem. Logo, em cada tempo um palavrão. Mas como definir um palavrão? Diz o Mini Luft: 1. Palavra grande; 2. Palavra indecente. Então, palavrões são palavras que expressam a indecência de um tempo determinado. Sendo assim, quais as indecências do nosso tempo? São elas as indicadoras dos palavrões contemporâneos.
No início de Março de 1964, o Brasil vivia uma intensa turbulência política. As forças da direita, representantes do capital nacional e internacional, conspiravam para acabar com os avanços do movimento popular, que exigia a ampliação dos direitos sociais das classes trabalhadoras. O Presidente João Goulart, acuado por todos os lados, decidiu-se por um encontro com o povo, em praça pública. 
Foi marcado um comício, na cidade do Rio de Janeiro, (na prática, era ainda a capital política do país), para o dia 13 de Março, 17 horas. Nele, com o testemunho dos mais de duzentos mil trabalhadores que compareceram, Goulart afirmou: "O Brasil precisa de reformas e eu estou aqui para iniciá-las". Em seguida, no próprio palanque, assinou os diversos decretos que facilitariam tais reformas. A Reforma Agrária estava entre elas. Liberdade sindical, voto para os analfabetos, legalidade para o Partido Comunista, também. Aquela sexta feira 13 foi o estopim do golpe: a reação conservadora não tolerou o "abuso dos decretos". O resto da história todos sabem. Sabem também que, hoje, os analfabetos votam, o PC tem existência legal e a liberdade sindical é uma realidade. Mas e a Reforma Agrária? A Reforma Agrária incomoda muito mais...
Uma reforma radical no campo, a partilha da terra, a igualdade de condições para produzir, a prática da policultura (que gere comida barata e saudável para os habitantes do campo e da cidade), políticas públicas que acabem de vez com os privilégios dos grandes proprietários, continuam incompatíveis com os interesses do velho latifúndio monopolista-exportador. O uso da terra para o lucro máximo, não para o preço justo, permanece como o objetivo. Não importa a degradação planetária, muito menos o crescimento da insegurança alimentar mundial. 
Desse modo, percebe-se que, neste caso, só o palavrão é novo - AGRONEGÓCIO. A indecência permanece a mesma. Não há 50 anos, mas desde o tempo das capitanias hereditárias. Até quando?
Seguindo o exemplo do povo venezuelano que grita "Chávez somos todos!", poderíamos, quem sabe, gritar: "Camponeses somos todos! Abaixo o palavrão!" 
Maria

Faz aqui tua pergunta, 
talvez alguém responda

deixa aqui uma resposta, 
talvez alguém queira escutá-la.



Duas obras que desvelam indecências sociais: 

Violência no campo - O latifúndio e a reforma agrária. Júlio José Chiavenato. Editora Moderna, 2009.




Movimento camponês rebelde - a reforma agrária no Brasil. Carlos Alberto Feliciano. Editora Contexto, 2006.



sábado, 9 de março de 2013

A despolitização da política

Uma tarde na Câmara de Vereadores


A Câmara de Vereadores do Rio Grande tem séculos de História. É a mais antiga do Estado. 
Durante os períodos Colonial e Imperial, administrava a Municipalidade. Seu presidente exercia a função executiva de governo, sendo então inexistente o cargo de prefeito. Os demais integrantes tinham atribuições fiscais (controle dos impostos), administrativas (seleção de funcionários públicos e fiscalização das condições urbanas), normativas (elaboração do Código de Posturas da Cidade) e judiciais (encaminhamento de prisioneiros).
Com a República, transformou-se em Conselho Municipal, passando a ter funções exclusivamente orçamentárias. Surgiu, na época, o cargo de Intendente Municipal que, mais tarde, receberia a denominação de Prefeito. Com a Constituição de 1934, foram restabelecidas a denominação de Câmara Municipal e a diversificação de atribuições. A partir daí, nos longos períodos autoritários como nos curtos períodos democráticos do BR - século XX, foi ela refletindo, como espelho, o tempo histórico vivido pelo povo brasileiro e rio-grandino.
Com a Constituição de 1988, consolidou-se como Parlamento -- o lugar da fala... política. O lugar da fala dos diferentes segmentos sociais, das diferentes correntes de pensamento, que disputavam espaço na cena política local. De novo como espelho, refletia as conquistas resultantes das lutas pela democratização do país. Nela debatiam, e combatiam, quadros políticos de diferentes orientações ideológicas, que se agigantavam na defesa de suas bandeiras partidárias. Sabiam que tais símbolos correspondiam a uma determinada visão de mundo. 
Neste início do XXI, ano de 2013, é assustador o que se observa lá. Em cada sessão, um desfile interminável de discursos personalistas, de indicações e sugestões óbvias e pífias, de detalhes sórdidos, de vaidades em disputa, de exacerbação do pessoal em detrimento do coletivo. O eu reina quase absoluto. Mesmo quando temas pertinentes e urgentes são debatidos (como mobilidade urbana, saneamento básico, moradia, saúde, educação, ...) o que prevalece é a demagogia pura.
Entretanto, nossa Câmara de Vereadores não está sozinha em seu mergulho no discurso despolitizado. Há outras muito semelhantes, espalhadas por todo o país. Espelham agora um tempo em que o velho individualismo retorna com força, mas continua mostrando apenas máscaras dispersas. E, como disseram Marx e Engels, na Introdução da sua "Ideologia Alemã", é preciso desmascarar esses cordeiros que se acreditam lobos. Cordeiros do capital.
Contudo, em sociedade, a generalização é sempre ilusória, aparente. Diferenças existem. Procuremos.
Vamos encontrá-las nos vereadores que, esquecendo o próprio umbigo falem em nome de um coletivo ideológico. Iremos preferir, com certeza, aqueles que defendam a partilha igualitária da riqueza, o fim do monopólio no transporte coletivo municipal, o crescimento social ecologicamente sustentável e o protagonismo cidadão através da criação de uma Tribuna Popular na "Casa do Povo". Estes serão a voz da consciência crítica.
Maria

Uma leitura necessária: A democracia brasileira e a cultura política no RS, Marcello Baquero e Jussara Reis Prá. UFRGS Editora, 2007.



Nesta obra, os autores apresentam seus estudos sobre a cultura política do RS como uma contribuição ao entendimento das razões que garantem a permanência de práticas personalistas e arbitrárias na política contemporânea.


Uma leitura imprescindível: A Ideologia Alemã, Marx e Engels. Disponível em diversas edições contemporâneas, inclusive Pockets.



Um retorno a Marx e Engels não é certamente um regresso nostálgico ao passado. Sua "re-leitura" não nos afasta do presente. Trata-se de um diálogo que é daqui e de todos os lugares, de ontem e de hoje, e possivelmente ainda de amanhã, enquanto o reino planetário da mercadoria continuar a manchar de chumbo o nosso horizonte. Na Ideologia Alemã há o esboço de uma nova escrita da história, sem promessas, resultante de escolhas e decisões, da concretização de uma possibilidade entre outras.
Boa leitura!

terça-feira, 5 de março de 2013

Chegamos onde queríamos?

"Vivemos três ditaduras:
- a ditadura do dinheiro, que é o capital financeiro,
- a ditadura da terra, que é o agronegócio,
- a ditadura da palavra, que é o monopólio da mídia."
EMIR SADER
(em entrevista ao jornal Brasil de Fato, novembro de 2012)


No Brasil, vive-se uma democracia. A naturalidade com que afirmamos e sentimos isto cotidianamente faz parecer aos mais jovens que sempre foi assim. Mas não foi. E não é.
A palavra Democracia carrega em si significados muito caros a todos que lutaram e lutam pela emancipação das maiorias exploradas. Liberdade, Justiça, Igualdade, Acesso, são alguns deles. Mas nela estão também, como grude, os significados de Demagogia, Manipulação, Logro e Cinismo, tão necessários a todos que lutaram e lutam pela continuidade da opressão de classe.
Às vezes, não se percebe que, mesmo encarnando tantos significados, ou talvez por isso, a palavra Democracia precisa ser complementada para ser verdadeiramente compreendida: democracia política, democracia social, democracia econômica. Reconhecimento e garantia de direitos políticos, direitos sociais e direitos econômicos. Partilha igualitária do poder em qualquer instância ou esfera da vida coletiva: poder político, poder social, poder econômico.
A luta pela democracia política, pela partilha do poder de Estado, de resistência às ditaduras, foi constante em diferentes regiões do mundo ao longo dos três últimos séculos. Houve avanços e recuos. No Brasil, intensificou-se durante o século XX e, com breve período de exceção (década de 1950 e adjacências), só obteve vitória significativa com a promulgação da Constituição de 1988. Historicamente muito recente, está longe da plenitude. Necessita radicalização. Ainda não temos tribunas populares nos parlamentos, interrompemos as experiências de Orçamento Participativo, raramente usamos o recurso das Consultas Populares e o poder econômico permanece determinando alguns resultados eleitorais. 
Entrelaçada a ela, esteve sempre a luta pela garantia dos direitos sociais para as classes trabalhadoras do campo e da cidade, com avanços ainda mais demorados. Hoje contabiliza conquistas importantes, embora, por enquanto, mais na legislação do que na prática. Radicalizar também essa democracia social incipiente faz parte do caminho para a emancipação dos excluídos.
Quanto à luta pela distribuição igualitária da riqueza socialmente produzida (a desejada democracia econômica), esta será uma tarefa para os lutadores do século XXI. Exigirá um acúmulo de forças que não temos hoje. Apesar das crises que lhes são inerentes, o capital ainda nos impõe suas ditaduras. 
Então, se as circunstâncias não nos são favoráveis, talvez seja bom que ouçamos o Velho Mestre:
"A doutrina que supõe que os homens são unicamente produtos das circunstâncias e da educação esquece que são justamente os homens que transformam as circunstâncias e que o próprio educador precisa ser educado."
KARL MARX
(III Tese Sobre Feuerbach)


Um livro necessário: As armas da crítica - Antologia do Pensamento de Esquerda, Emir Sader e Ivana Jinkings (organizadores). Editora Boitempo, 2012.




HUGO CHÁVEZ

Lutou contra o império, valentemente... hoje se foi.
Que sua vontade de lutar permaneça aquecendo corações e mentes por toda a América Latina.
Maria

sábado, 2 de março de 2013

Onde estão os professores sobrecarregados? (retalho da história-presente)

Na história das sociedades humanas, há momentos que exigem perguntas, mas há os que exigem respostas. Na história do RS, este é um deles.
Na noite do dia 27 de fevereiro, em um programa de tv, ao vivo, a Secretária Estadual de Educação (adjunta) lançou um desafio à sociedade rio-grandense, ao perguntar: onde estão os professores sobrecarregados? Há que se responder à Secretária.
Talvez hoje no RS não existam mais professores trabalhando em duas escolas, com carga horária semanal superior a 30 horas e mais de 10 turmas de estudantes para atender. E isto, devemos reconhecer, representa significativo avanço. Mas é a realidade? Se for, aplausos. 
Entretanto, trabalhar em duas (ou mais) escolas, ter uma carga horária superior a 30 horas semanais e atender mais de 10 turmas de estudantes não são os únicos fatores a sobrecarregar os trabalhadores em educação. 
Sobrecarrega-os o insuficiente investimento no setor educacional,  que transforma o cotidiano escolar numa luta permanente contra o desconforto (quando não contra a insalubridade) no local de trabalho.
Sobrecarrega-os a política pública que não transgride a ordem do capital e os estimula a permanecer exclusivamente como "preparadores" de mão-de-obra para o mercado de trabalho. Embora os discursos oficiais afirmem o inverso. 
Sobrecarrega-os, também o salário miserável, representante e desvelador da grande contradição das sociedades capitalistas que, com "mão-de-obra barata", fazem da precariedade no atendimento ao grande público um instrumento garantidor da supremacia do poder privado.
Mais do que tudo isso, no entanto sobrecarrega-os a falta de perspectiva profissional, o estreito e nublado horizonte que seus olhos vêem, quando saem para trabalhar. 
Assim, da porta de cada escola pública rio-grandense, é possível responder à pergunta demagógica: ESTÃO AQUI. Estão aqui os professores e os funcionários sobrecarregados. De preferência, em uníssono e muito alto. Para que a resposta seja ouvida. Só o cinismo extremo ou a ingenuidade máxima, ousarão desmenti-la.
Maria


Leitura para compreender: História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil. Vito Giannotti. Editora Mauad X, 2007.


Um livro com objetivo claro: oferecer uma versão da história da sociedade brasileira do ponto de vista da classe trabalhadora. Não é uma história geral das lutas dos aqui explorados desde os tempos coloniais. Seu recorte é a formação da classe trabalhadora urbana a partir de meados do século XIX, chegando à década final do século XX. 
Conhecer e reconhecer o protagonismo histórico dos "produtores" da riqueza (material ou imaterial), ao longo do tempo passado, é fundamental para que se compreenda o tempo presente. O texto de Giannotti contribui para esta compreensão e vai além: reafirma a convicção de que a luta continua sendo o único caminho capaz de clarear o horizonte.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Literatura e o poder de imaginar

Há algum tempo (junho de 2012), o Prof. Luís Augusto Fischer publicou um texto com o título "Homo Fictus" (o homem contador de histórias). Nele faz considerações valiosas sobre a prática humana de conceber e contar histórias. Oferece-nos, ainda, uma pequena/grande amostra da tese sobre o tema defendida pelo também professor de Literatura Johnathan Gottschal em seu livro "O Animal Contador de Histórias - como a Ficção nos Torna Humanos", inserindo, entre as suas, as palavras do autor na apresentação da citada obra:

"Este livro é sobre o Primata Homo Fictus, o grande símio contador de histórias.
...Ficção é para os humanos como a água é para os peixes, envolvente e pouco perceptível. Enquanto seu corpo está fixado em um ponto particular do espaço-tempo, sua mente é livre para voar por terras de faz de conta. E consegue."

Tanto Gottschal quanto Fischer, nos levam a olhar a Literatura (enquanto conjunto de obras ficcionais) de um ângulo pouco explorado pelo senso comum. É habitual a afirmativa de que a audição ou a leitura de narrativas de ficção "despertam" a imaginação (para muitos, inclusive uma inutilidade), oportunizando, ao sujeito que ouve ou lê uma obra literária, aprazíveis instantes de lazer, numa fuga momentânea da realidade circundante. Fato incontestável.
Entretanto, não é tão costumeiro que se vá adiante e se faça a defesa da imaginação como impulsionadora do movimento histórico, apontando-se a obra de ficção como potencializadora de um "crescimento imaginativo" - a imaginação criadora do autor como ponto de partida para um possível ato criador daquele que ouve ou lê e... imagina.
Pensando assim, é possível concluir que este potencial imaginativo, encadeado como corrente elétrica, ampliando horizontes, saltando cercas, desenhando casas colorindo o mundo, tem gerado junto com a necessidade e a consciência da necessidade, ao longo do tempo histórico, todas as revoluções: científicas, culturais, políticas e sociais.
Maria

Algumas preciosidades literárias



domingo, 24 de fevereiro de 2013

A função social do Passado

"A maior tarefa do historiador é lembrar o que as pessoas esquecem."
Eric Hobsbawm

Em tempo anterior algum os conhecimentos e as crenças do passado foram tão renegados por inutilidade como neste em que vivemos. Não interessa o que aconteceu "antes" - esquece o que foi dito e feito, "esta é a parte que te cabe neste latifúndio", não "pensa" que pode ser diferente - é o que, implicitamente, diz a voz do microfone. Explicitamente, entretanto, o resgate histórico continua sendo enaltecido, embora talvez seja  apenas o resgate  de "migalhas".
O embate ideológico hoje travado tem como instrumento primordial a negação, começando pela negação de si mesmo - as ideologias morreram. O discurso hegemônico que, para melhor subjugar as maiorias, quer ser único (mas não é) nega o conflito de interesses, a divergência, a existência de um outro caminho, a luta de classes. Como poderia, então, permitir a permanência da História em nossas mentes?
Apesar disso, o tempo de "antes" - de antes da novidade-pouca proclamar-se o novo-pretendido pelos que se rebelaram, de antes do espetáculo tornar-se a arma do império para confundir as consciências (inclusive a dos que lutaram) - ainda permanece entre nós. Não porque queiramos repeti-lo, mas porque precisamos torná-lo lição. Não como mito estimulador de nostalgias e sim como contribuição objetiva à continuidade da luta pela emancipação da classe trabalhadora. Porque é disso que se trata.
Permanece apenas para lembrar que é possível fazer diferente. Que é possível começar outra vez. E outra. E mais outra. A cada dia.
Querendo o inédito.
Respeitando o vivido.
(E os historiadores continuam por aí, cumprindo sua tarefa maior...)

Maria

A história da foto:

A foto que adorna o início da jornada virtual deste andarilho retrata a experiência vivida pelos espanhóis, quando instituíram sua república libertária na década de 1930 e criaram bibliotecas populares. Derrotada a República, ficou a imagem, comprovando o realizado.

Leitura sugerida: 

Que a União Operária Seja Nossa Pátria - Lutas dos Operários Gaúchos. Silvia Regina Ferraz e Petersen. Editora UFSM, 1ª edição, 2001.



Uma obra importante para quem quer conhecer um pouco da história do Rio Grande do Sul e da cidade do Rio Grande a partir das ações coletivas de sua classe operária no início do século XX. Resultado de profunda investigação oferece ainda uma riquíssima indicação bibliográfica para quem quiser seguir adiante nos estudos sobre o tema.
Pode ser encontrado ainda no sebo "Estante Virtual".

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A volta de Hugo Chávez e a ira da Rede Globo


"Os incas se levantaram. Os aymarás também. Tupac voltou em forma de milhões." 
Hugo Chávez (no Fórum Social Mundial, em Caracas, 2006)

O que se tem visto na Venezuela desde abril de 2002 (quando então uma tentativa de golpe orquestrada pela oposição capitalista, apoiada pelos EUA e, no Brasil, defendida operacionalmente pela Rede Globo, tentou a volta ao poder de Estado e foi derrotada) é o crescimento dos movimentos populares posicionados a favor do processo histórico desencadeado a partir da campanha que elegeu Chávez Presidente da Venezuela pela primeira vez, em 1998. Este processo, que eles denominam Revolução Bolivariana, pode ainda não ser "aquela" Revolução, mas talvez seja sua semente. Porque está "aprendendo a fazer, fazendo" e "aprendendo a ser, sendo". Me darão razão os professores. (Será?)
Tem ele enormes avanços na direção de uma democracia popular, mais do que legal, legítima. A primeira ação política de Chávez, ao assumir em 1999, foi um decreto convocando uma Consulta Popular para saber se o povo queria modificar a Constituição. E o povo quis.
A nova Constituição aumentou de forma inédita na América Latina aquela velha divisão dos poderes de Estado (tão conhecida dos brasileiros). Além dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, a Venezuela passou a ter também os Poderes Eleitoral e Cidadão, inegavelmente instâncias de poder favoráveis às maiorias e poderosos instrumentos populares para a luta de classes pela redistribuição da riqueza. 
Para onde está seguindo o povo venezuelano? Eles dizem estar indo em direção ao poder legítimo, muito além do poder legal.
Por isso, impossível calar: 
BEM-VINDO, CHÁVEZ!
FORA REDE GLOBO!

(A Medicina de Cuba é boa, não? A Yoani Sánchez não acha, mas o povo da Venezuela acha).



Sugestão de Leitura: 

O Marxismo na América Latina (uma antologia de 1909 aos dias atuais)

Michael Löwy, organizador.
Fundação Perseu Abramo, 3ª edição, 2012.



Obra fundamental para conhecer uma versão da História Latino-americana contada, porque vivida, por aqueles que, ao longo do século XX, lutaram pela emancipação dos trabalhadores do campo e da cidade em nosso continente.
O que pensavam? O que fizeram? 
Quais os caminhos escolhidos? Quais foram os impostos?
Quais os erros? E os acertos?
Um resgate das trilhas e rastros deixados por revolucionários do século XX, antes que se apaguem. Para compreender e, então, seguir adiante... construindo as trilhas exigidas pelo tempo presente.
Boa leitura!
Maria

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Pontos de Luz

"Orgulha-te: eu levo o estandarte
Não te preocupes: eu levo o estandarte
Ama-me: eu levo o estandarte"
Rilke


Podem ser estrelas ou lampiões, claraboias ou brasas da lareira, vagalumes ou grandes mestres, lanternas ou fogueiras, computadores ligados ou estandartes levantados.
Podem ser naturais ou provocados, perenes ou efêmeros, ofuscantes ou aconchegantes, reais ou simbólicos.
Estão por toda a parte e ao longo da história da humanidade têm contribuído para impulsionar a caminhada dos povos. Mas também para impedir a marcha ou até mesmo para fazê-la retroceder.
Há quem diga, que entre eles, os mais necessários são os que aquecem  pés e  mente. Porque talvez a verdadeira origem de qualquer movimento individual ou coletivo não seja a visão da luz, mas sim o calor que pelos corpos sobe, quando levam um estandarte.
Onde está o estandarte?
O que fizeram do estandarte?
Quem é o estandarte?
                                                                                                                                                         
Maria


Rilke: Considerado um dos grandes poetas de língua alemã do século XX, nasceu em Praga, atual República Tcheca, em 1875, e faleceu em Valmont, Suíça, em 1926. Foi um andarilho, vivendo em diferentes países da Europa. O reconhecimento foi tardio, só na década de 1940 espalhou-se pela Europa, chegando à América do Sul. No Brasil, foi sucesso entre a juventude intelectual nas décadas de 1950 e 1960.
Em 2012, a Cia das Letras lançou, de sua autoria, o volume POEMAS (traduzidos por José Paulo Paes).



Um livro interessante: 

O amor de Pedro por João, de Tabajara Ruas, Record, 1998 (1ª edição L e PM, 1982), romance.


Uma história tecida com retalhos da derrota sofrida pela esquerda na luta contra a ditadura militar no Brasil.
Cada retalho, um personagem e suas circunstâncias. Cruzando-os, TR nos mostra um mosaico da guerra subversiva travada subterraneamente (ou não) no continente sul americano durante a segunda metade do século XX. Infortúnio exposto sem melodrama. Linhas e entrelinhas da história recente. Só, mas bastante. Literatura - luto, nos faz lembrar Hemingway: os sinos dobram por nós, por nossos estandartes... rasgados.
Onde encontrar: na editora e nas livrarias está esgotado, mas em diversos sebos da web está disponível.