terça-feira, 21 de abril de 2015

EDUARDO, O GALEANO

Eduardo Galeano chegou a este mundo em 1940 e dele se foi há poucos dias. Era uruguaio e, por toda a vida, colocou seu imenso talento de poeta a serviço da "prosa" dos que sangram baixinho espalhados pelas terras da Latino-América. Sem ser historiador de ofício, descortinou, como poucos, a história dos povos destas plagas.
Durante a longa noite das ditaduras militarizadas do nosso continente, na segunda metade do século XX, em que as únicas estrelas visíveis eram as encontradas nos uniformes do generais, foi perseguido e exilado, mas não sossegou. Permaneceu a voz dos calados à força, o guardião da memória dos "ninguéns", o canto de guerra dos que lutavam pela liberdade.
Escreveu lindamente. Movido pela razão, partiu sempre de uma análise crítica da sociedade em que estava mergulhado. No entanto, nunca desconsiderou o calor dos corpos incendiados de paixão. Seja por um outro corpo, seja pela humanidade inteira. Esta unidade proposta, esta contestação da dicotomia artificial e artificiosa que, em geral, guia os caminhos letrados, deu à sua obra o sentido por ele desejado - o de testemunho, racional e apaixonado, da valentia das margens em sua resistência ao rio que as faz desmoronar.
Por longo tempo, não foi bem aceito pelos "doutores" da academia. Talvez justamente por essa plenitude no olhar. Razão e emoção combinando-se para narrar o mundo. E da qual são capazes unicamente os que ousam transgredir o cânone intelectual dominante há séculos. Que narra o rio sem se importar com as margens. Ele seguiu em frente, colocando no papel o fruto de suas convicções, seus estudos, suas viagens, suas escolhas, seus encontros. Com seus textos, espalhou saberes sobre a dura realidade latino-americana, mas principalmente, gerou vontades. De justiça e de transformação.
Radicalmente anti-capitalista, foi um destemido insurgente que lapidava palavras para com elas combater todas as formas de opressão, denunciando incansavelmente os preconceitos, o tratamento desigual, a espoliação dos trabalhadores, a degradação do planeta. Mantendo a objetividade sem torná-la sacra, mostrou ao mundo como a subjetividade pode colocar-se a favor da vida. De todos. Bastando para isso que não se reduza à divinização do eu.
Sonhador e amoroso, via nos sonhos um primeiro passo e nos abraços, o melhor carinho. Quanto aos sonhos, reconhecia que para  explorados e oprimidos, longa era a caminhada até mesmo para conquistar o direito de sonhá-los. Já os abraços prezava, tanto os permitidos pela carne próxima como aqueles trazidos e levados pelos ventos.
Numa época em que quase tudo parece o que não é, representou uma antítese. Não maquiou o cenário, expôs a beira do abismo. Não editou o contexto, preservou o ruído de fundo. Não endeusou a mercadoria, valorizou os seres humanos. Não se diluiu  na "eternidade" do presente, adivinhou um futuro possível. E, sobretudo, negou-se a encobrir a infâmia, retratou-a nua. Foi e pareceu. Constantemente e até o fim.
A ele, nosso respeito e nossa consideração. Imortais.
MARIA

quinta-feira, 16 de abril de 2015

EM DEFESA DA LIBERDADE... DE SER

Não costuma haver dúvidas quanto à localização dos chamados regimes políticos fascistas no espaço/tempo do mundo contemporâneo. É consenso identificar como tais, a Itália de Mussolini, a Alemanha de Hitler, a União Soviética de Stalin, o Portugal de Salazar e a Espanha de Franco, além de alguns governos "simpatizantes" na América do Sul, durante a primeira metade do século XX. Entre tantas lideranças de peso, Mussolini é quem leva o título de pioneiro. Foi ele, inclusive, quem escolheu o nome, hoje pejorativo. Que retirou de "fascio" - feixe em italiano, mas machado em latim (uma arma romana). Os demais nunca assim se autodenominaram, foram denominados "de fora".
No entanto, o termo fascismo extrapola o significado de regime político totalitário que lhe é comumente atribuído. Significa também, sociologicamente falando, uma forma de pensar e de agir, de ver e de sentir o mundo, marcada pela intransigência e embasada no irracionalismo. Pode ser encontrado em indivíduos ou em grupos de qualquer sociedade dita civilizada. É o chamado fascismo social. São percebidas manifestações suas desde a Antiguidade, onde o desenvolvimento filosófico embasado na razão foi violentamente contestado por grupos que só aceitavam a tradição mitológica.
Esta chaga é constituída por um amplo leque de peculiaridades, às vezes contraditórias entre si e presentes em outros tipos de fanatismo. Elas apresentam-se na forma de hábitos culturais, princípios morais ou preceitos religiosos. Encontram-se tão arraigadas na vida comunitária que se tornam praticamente invisíveis. E esta invisibilidade é sua maior arma. Assim como os parasitas sugam seu hospedeiro, avançam sobre a sociedade que as alimenta sem perceber.
Entre suas marcas mais fortes está o culto à tradição - uma verdade qualquer já foi anunciada de uma vez por todas em algum momento do passado e não pode ser contestada em hipótese alguma. Aqui a origem da discriminação, do preconceito, da xenofobia, da impossibilidade de diálogo, da violência contra o diferente, da "justiça" pelas próprias mãos.
Portador de grande debilidade filosófica, destituído de qualquer teoria, o fascismo social possui apenas retórica e acentua-se em momentos de crise econômica ou instabilidade política, encontrando na confusão ideológica do presente um campo fértil para sua expansão.
Um currículo escolar que defenda a justiça social, a democracia política e a liberdade de ser, precisa necessariamente combate-lo, apontando o dedo para cada uma de suas formas ANTES que nossas crianças e jovens sejam por ele contagiadas. Depois,fica mais difícil...
                                                                                                                       
                                                                                                                           MARIA  

sábado, 11 de abril de 2015

COMO ASSIM?

A atenção prioritária que está sendo dada à educação pública no Rio Grande do Sul, de acordo com as vozes do Governo Estadual (PMDB) e, mais especificamente, da Secretaria de Educação (PDT), talvez esteja expressa no teor do Projeto de Lei 103/2015, enviado pelo Executivo à Assembléia Legislativa no dia 8 deste mês. Trata-se de obter autorização do Parlamento para que escolas estaduais possam ser "adotadas" pela iniciativa privada. COMO ASSIM?
Segundo palavras do Secretário, divulgadas em texto assinado por sua assessoria de comunicação no site www.rs.gov.br, a intenção é permitir e estimular, ENTRE OUTRAS COISAS, que pessoas físicas e jurídicas possam oferecer "patrocínio", tanto para consertos e reformas nos prédios, quanto para aquisição de materiais de uso de estudantes e professores. Em contrapartida, ficam com o direito de propagar, para fins promocionais e publicitários, as "beneméritas" ações realizadas. COMO ASSIM?
Segundo explanação do Governador, em entrevista à imprensa, não se trata de "passar  adiante" a responsabilidade do Estado para com a educação, mas de "somar esforços e dividir custos" com a sociedade em proveito do ensino escolarizado, que está no centro de suas preocupações. COMO ASSIM? 
Segundo o texto do próprio Projeto de Lei, o Poder Executivo quer instituir o Programa "Escola Melhor: Sociedade Melhor", com o objetivo de incentivar a esfera privada a financiar o ensino público do Estado através de doações que vão da doação de equipamentos à doação de recursos financeiros para ampliações e reformas, passando pela promoção de palestras "didáticas" para estudantes e professores, sendo que os detalhes e especificações serão posteriormente estabelecidos por Decreto do Governador. COMO ASSIM?
O que significam as dúbias palavras do Secretário, a confusa explanação do Governador e o vago texto do Projeto de Lei? Fantasiadas de um simplismo caricato e aparentando apenas pragmatismo econômico, significam,antes de mais nada, um ataque frontal à Constituição, que atribui ao Estado a responsabilidade pelo financiamento da educação pública escolarizada. Mais do que isto, significam que a política deste governo para o campo educacional está sendo pautada pela possibilidade de intromissão dos interesses empresariais em espaços onde a exclusividade deveria ser dos interesses pedagógicos. COMO ASSIM?
Se o objetivo dos nossos governantes for atingido, pode ser que o próximo passo seja a multiplicação de áreas de abrangência da "adoção" e tenhamos  Programas como "Socorra um Posto de Saúde" ou "Embeleze uma Delegacia de Polícia". Quem o fizer, poderá, quem sabe, colocar "sua" marca  nos coletes dos policiais ou nos jalecos dos enfermeiros. COMO ASSIM?
Entretanto, talvez o PL 103/2015 não seja aprovado pelos deputados rio-grandenses. Se aprovado, talvez não cause os efeitos desejados por seus propositores, por pura falta de "parceiros". De qualquer forma, terá sido o anúncio de um mau tempo para as nossas escolas estaduais, tempo em que o fantasma da temida terceirização vai rondar seus muros e até mesmo sua linha curricular. COMO ASSIM?
Durante a campanha eleitoral, José Ivo Sartori, acintosamente, mandou os professores  buscarem seu piso salarial na Tumelero. Ninguém se importou com desrespeito, ele foi eleito com uma ampla maioria de votos. Agora, com o mesmo acinte, manda as comunidades escolares buscarem seu teto na padaria da esquina. Quem se importará? Quiçá os estudantes,incomodados com a mercantilização da vida. Isto, se não estiver faltando aula de história.
COMO ASSIM? ASSIM.
Maria