"Unanimidade é composta por uma parcela de entusiasmo, uma de conveniência e uma de desinformação."
Carlos Drumond de Andrade
in "A rosa do povo", 1987
Em um tempo logo ali atrás da esquina, quando éramos ainda só projeto e desejo, ardências e urgências, e engatinhávamos na tentativa de ocupar espaços institucionalizados enquanto Partido Classista, éramos, sabendo disso, só meia dúzia de gatos pingados no seio da sociedade brasileira.
Fruto da união de três grandes vertentes da luta social no Brasil, século XX, - teologia da libertação - sindicalismo insurgente - militância marxista pelo socialismo - todas forjadas ou fortalecidas pelo "combate nas trevas" contra o regime militar ditatorial que nos sufocou por mais de 20 anos, éramos também herdeiras e herdeiros das muitas lutas do povo brasileiro ao longo de 500 anos.
Nos primeiros embates eleitorais enfrentados, "sentíamos" a vitória quando não conseguíamos nos enxergar no meio da "massa" no chão da rua. Era um poder sem ter poder que nos lavava a alma, se alma tivéssemos. Nossos primeiros eleitos e eleitas não ditavam o caminho, escreviam na história o que era ditado coletivamente pela "nação petista", como gostávamos de nos chamar. Nos representavam, não nos substituiam. Como não cansa de dizer até o hoje o mestre Olívio Dutra.
Brigávamos muito internamente, a mistura intensa das vozes temperava nosso pão. Preocupados só ficávamos quando o silêncio acontecia. Porque, para nós, significava desistência, seja lá por qual motivo.
O "modo petista de governar" melhorou em muito a vida do povo brasileiro. Políticas públicas democratizantes , com participação popular decisória, ampliaram "como nunca d'antes" o reconhecimento dos direitos sociais de grandes parcelas populacionais, por séculos invisíveis ao poder político. Iniciamos o XXI assim, ocupando o poder formal em muitas Cidades, alguns Estados e no País.
No entanto, em meio ao ataque feroz do projeto capitalista de mundo em sua fase ultraneoliberal, ancorado no sistema financeiro, na "revolução" tecnológica capitaneada pelas ditas "big techs" e no fundamentalismo religioso, fomos mudando de rumo e de pensar, na política e na vida. Mordidos pela mosca azul da soberba individualista, típica dos capitalistas, fomos hierarquizando nossas práticas de "dentro" e, pouco a pouco, abafando a voz da militância tarefeira, nossa arma mais potente.
Acreditando ser esta a trilha mais fácil e mais segura para garantir vitórias infindas, fomos desbotando cada vez mais o vermelho da estrela. Na ilusão de quem se conformou em administrar o Estado Burguês e pensou que bastava "colocar os pobres na beirinha do orçamento".
Ilusão que nos fez dizer que 2013 não ia virar à direita, mas virou. Que não ia ter golpe contra Dilma, mas teve. Que Lula não ia ser preso, mas foi. Que as "reformas" de Temer não iam passar, mas passaram. Que Bolsonaro não seria eleito em 2018, mas foi. Que a democracia tinha sido salva com a vitória de Lula em 2022, mas não foi. Que a reeleição de Lula seria fácil em 2026, mas não foi.
Enquanto isso, deixamos de fazer a defesa do socialismo como o horizonte possível para superar a miséria do capital, que no tempo presente devasta o planeta. Desse modo roubamos das novas gerações, tal qual o pensamento conservador, a possibilidade de pensar um futuro diferente daquele até aqui anunciado pelas evidências mais gritantes.
A vitória da batalha eleitoral nacional de 2026 veio pelas mãos do povo, tendo à frente a energia da juventude rebelada e na retaguarda a consciência, também rebelada, das velhas e dos velhos que foram votar só porque quiseram. Todas e todos puxados pelo grito na nuvem - "urgente" - de um evangélico, por sua vez igualmente rebelado. Lula sabe disso. Nós também.
Talvez seja a hora de "calçar as sandálias da humildade" e começar a repensar o dito e o feito.
Para seguir adiante, reaprendendo a andar pela margem... da esquerda.
MARIA
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