terça-feira, 5 de março de 2013

Chegamos onde queríamos?

"Vivemos três ditaduras:
- a ditadura do dinheiro, que é o capital financeiro,
- a ditadura da terra, que é o agronegócio,
- a ditadura da palavra, que é o monopólio da mídia."
EMIR SADER
(em entrevista ao jornal Brasil de Fato, novembro de 2012)


No Brasil, vive-se uma democracia. A naturalidade com que afirmamos e sentimos isto cotidianamente faz parecer aos mais jovens que sempre foi assim. Mas não foi. E não é.
A palavra Democracia carrega em si significados muito caros a todos que lutaram e lutam pela emancipação das maiorias exploradas. Liberdade, Justiça, Igualdade, Acesso, são alguns deles. Mas nela estão também, como grude, os significados de Demagogia, Manipulação, Logro e Cinismo, tão necessários a todos que lutaram e lutam pela continuidade da opressão de classe.
Às vezes, não se percebe que, mesmo encarnando tantos significados, ou talvez por isso, a palavra Democracia precisa ser complementada para ser verdadeiramente compreendida: democracia política, democracia social, democracia econômica. Reconhecimento e garantia de direitos políticos, direitos sociais e direitos econômicos. Partilha igualitária do poder em qualquer instância ou esfera da vida coletiva: poder político, poder social, poder econômico.
A luta pela democracia política, pela partilha do poder de Estado, de resistência às ditaduras, foi constante em diferentes regiões do mundo ao longo dos três últimos séculos. Houve avanços e recuos. No Brasil, intensificou-se durante o século XX e, com breve período de exceção (década de 1950 e adjacências), só obteve vitória significativa com a promulgação da Constituição de 1988. Historicamente muito recente, está longe da plenitude. Necessita radicalização. Ainda não temos tribunas populares nos parlamentos, interrompemos as experiências de Orçamento Participativo, raramente usamos o recurso das Consultas Populares e o poder econômico permanece determinando alguns resultados eleitorais. 
Entrelaçada a ela, esteve sempre a luta pela garantia dos direitos sociais para as classes trabalhadoras do campo e da cidade, com avanços ainda mais demorados. Hoje contabiliza conquistas importantes, embora, por enquanto, mais na legislação do que na prática. Radicalizar também essa democracia social incipiente faz parte do caminho para a emancipação dos excluídos.
Quanto à luta pela distribuição igualitária da riqueza socialmente produzida (a desejada democracia econômica), esta será uma tarefa para os lutadores do século XXI. Exigirá um acúmulo de forças que não temos hoje. Apesar das crises que lhes são inerentes, o capital ainda nos impõe suas ditaduras. 
Então, se as circunstâncias não nos são favoráveis, talvez seja bom que ouçamos o Velho Mestre:
"A doutrina que supõe que os homens são unicamente produtos das circunstâncias e da educação esquece que são justamente os homens que transformam as circunstâncias e que o próprio educador precisa ser educado."
KARL MARX
(III Tese Sobre Feuerbach)


Um livro necessário: As armas da crítica - Antologia do Pensamento de Esquerda, Emir Sader e Ivana Jinkings (organizadores). Editora Boitempo, 2012.




HUGO CHÁVEZ

Lutou contra o império, valentemente... hoje se foi.
Que sua vontade de lutar permaneça aquecendo corações e mentes por toda a América Latina.
Maria

Um comentário:

  1. Ótimo texto, como sempre!

    Sobre Hugo Chávez, gostaria de adicionar um comentário interessante feito por Eduardo Galeano:

    A DEMONIZAÇÃO DE CHÁVEZ - por EDUARDO GALEANO

    "Hugo Chávez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, apesar de viverem em um país que tem a riqueza natural mais importante do mundo, que é o petróleo. Eu vivi nesse país por alguns anos e sabia muito bem o que era. A chamam de "Venezuela Saudita" por conta do petróleo. Havia 2 milhões de crianças que não podiam ir às escolas porque não tinham documentos. Aí chegou um governo, esse governo diabólico, demoníaco, fazendo coisas básicas, como dizer "As crianças devem ser permitidas nas escolas com ou sem documentos." E então caiu o mundo: isso é a prova de que Chávez é um malvado malvadíssimo. Já que tens essa riqueza, e graças à guerra no Iraque o petróleo passou a ser cogitado em um preço muito alto, ele quer se aproveitar disso para fins solidários. Quer ajudar os países sul-americanos, especialmente Cuba. Cuba envia médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram uma fonte de escândalo. Dizem que os médicos venezuelanos estavam furiosos pela presença desses intrusos trabalhando nos bairros pobres. Na época em que eu vivia lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico. Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chávez está na Terra de visita, porque ele pertence ao inferno. Então, ao ler a notícia, deve-se traduzir tudo. O demonismo tem essa origem, para justificar a máquina diabólica da morte."

    "Aos que me desejam a morte eu lhes desejo muita vida para que sigam vendo como a Revolução Bolivariana vai seguir avançando de batalha em batalha, de vitória em vitória" - Hugo Chávez

    Tatiana

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