sexta-feira, 29 de março de 2013

"Sou só pobre, negro e gay..."

A liberdade de ser sem sofrer discriminação por sê-lo é um direito humano?

No Brasil dos anos 60 e 70 do século XX, na linguagem popular da juventude, surgiu como gíria a palavra CARETA. Seu significado, restringido ao senso comum, estabelecia apenas a diferença entre os que fumavam e os que não fumavam maconha. No entanto, como tantas outras palavras, trazia nas entre-letras um sentido mais amplo e representava a distinção entre conservadores e inovadores sociais. Neste caso, fumar ou não fumar não é o que caracterizava o sujeito. CARETA era chamado, então, aquele ou aquela que afirmava: "mulher gosta de apanhar", que não namorava negros, que defendia a virgindade da noiva (não a do noivo) até o "altar", que reprovava o homossexualismo ou o enxergava como doença (uma boa surra curava), que gostava do verde - oliva dos quarteis, espalhando que "comunista come criancinhas", que ensinava o filho a ser macho, impedindo-o de chorar. Um CARETA não apresentava nenhum sinal de "mal - estar" na cultura em que vivia e ardorosamente a defendia. Fumasse ou não fumasse maconha.
Combatia-se a caretice, lutou-se muito pela sua extinção. Porque era predatória, porque os únicos direitos humanos que o CARETA defendia eram os próprios. O ser do outro, não sendo espelho, jamais era respeitado. Era um combate contra o pré-conceito, contra o juízo antecipado, contra a insinuação de culpa, contra o julgamento sem fundamentação racional, contra a permanência da "santa" inquisição no seio da sociedade laica. Expressou, inclusive, uma das faces da luta maior que, até aqui, tem movido a história da humanidade - a luta entre as classes.
Em 50 anos, avanços significativos foram obtidos neste embate. Mas a necessidade de continuá-lo está posta. O amparo legal, para que seja garantido a todos o direito de exercer o que há de humano em todos, caminha a passos lentos, mas caminha. Por isso, barrar, impedir, frustrar, qualquer retrocesso nesta caminhada é compromisso de todos os livres e de todos os ainda escravos, que bradam por libertação.
"Sou só pobre, negro e gay..." foi a frase dita, em frente às câmeras de TV, pelo cidadão detido dia 26 de março próximo passado no Congresso Nacional, a pedido do Presidente da Comissão dos Direitos Humanos daquela Casa. Dizia o deputado que iria processá-lo por calúnia e difamação (ele o chamara de racista, mas cadê as provas?). Chegava-se, assim, a um momento de ápice da ordem estabelecida nestas terras há 500 anos. A ordem da força, da covardia e da manipulação das consciências. Tolerância não é o que se quer (a tolerância é hierárquica). Respeito é o que se exige.
Intensificar a mobilização para expulsar Marco Feliciano de um espaço de luta construído com o suor e o sangue de milhares de militantes dos movimentos sociais é ponto de honra. Bandeiras ao vento, já! Vigílias permanentes, já! Greve geral, já! Luto extra-oficial até que... Mas não basta. Há que buscar, denunciar e inquirir em praça pública quem, por ação, omissão ou rabo preso, permitiu que ele chegasse lá e tem garantido sua permanência. Quais os objetivos velados desta escolha? O que esperam de uma comissão de direitos humanos presidida por ele? Qual o significado deste bode - CARETA na sala? "Meus inimigos" estão no poder? A caretice continua reinando?
Marchemos contra ela. Marchemos por nós... os só humanos.
Maria


Livro sugerido: 

A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro, Georges Bourdoukan. Editora Casa Amarela.




Nesta obra, o autor que é jornalista, mas também escreve ficção talentosamente, entremeou história e criação literária para desvelar cruamente o desrespeito aos direitos humanos no Brasil Colonial, contemplando também as lutas pioneiras pelo "direito de ser sem ser discriminado por sê-lo..." Mesmo tratando de tema tão pesado, a prosa é leve e ágil, capaz de seduzir desde o início.

2 comentários:

  1. Parafraseando o estimado deputado

    "O pastor Feliciano é o homem errado no lugar errado e, para a função, totalmente inadequado. Ele representa a negação dos direitos humanos."

    Chico Alencar, deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro

    É ISSO AI!!!!!

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  2. O que mais me perturba ao ver e ouvir declarações do Dep. Feliciano não é basicamente "nele", mas na "Bancada Evangélica". Nada contra evangélicos, tenho amigos, primos, tios evangélicos. Os trato com o mesmo respeito que dedico aos ateus, católicos, umbandista, reitor, prefeito, faxineiro. Mas não tolero "Bancada de religião x, y, z" por um único motivo:

    "Constituição Federal de 1988
    Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
    I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público;"

    Estou errado? Acudam-me!

    Abraço!

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